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Mitsugi Saotome (1)

por Stanley Pranin

Aiki News #89 (Fall 1991)

Traduzido por Christiaan Oyens

Este artigo foi preparado graças à ajuda de Jim Sorrentino dos Estados Unidos.

Mitsugi Saotome Shihan é muito conhecido nos Estados Unidos como o fundador do Aikido Schools of Ueshiba (Escolas de Aikido de Ueshiba). Nesta primeira metade de uma entrevista de duas partes, Saotome Shihan recorda seus quinze anos como uchideshi no Hombu Dojo, relata suas impressões sobre O-Sensei e discute sua abordagem para o treinamento com armas.

Aiki News: Poderia nos contar um pouco sobre o seu background em Aikido?

Saotome Sensei: Eu pratiquei Judo quando estudava na escola secundária. Fui enviado ao Kuwamori Dojo com uma carta de apresentação do meu professor de Judo porque ele achava que o Aikido seria bom para mim. Foi assim que fui introduzido ao Aikido. Quem estava dando aula naquele momento era o Seigo Yamaguchi Sensei. Eu era maior do que sou agora e pesava uns 90 kilos. Eu estava acostumado a ganhar competições de Judo em Tókio. Após a aula, Yamaguchi Sensei mandou que eu agarrasse seus dedos. No instante que eu os agarrei ele me arremessou. Não entendi como aconteceu e pensei que tivesse tropeçado em algum dos tatames. Pedi então que ele fizesse isso de novo. Acho que fui arremessado umas quatro ou cinco vezes. Ele me arremessou com seus dedos e também quando agarrei os seus ombros. Foi assim que fui iniciado nesta arte. Depois da aula conversei com o Yamaguchi Sensei e com o Kuwamori Sensei não só sobre artes marciais, mas também sobre vários assuntos como a filosofia oriental. Fiquei muito feliz com isso, pois estava ansioso para discutir estes temas. Ainda respeito Kuwamori Sensei e fiquei muito impressionado com o Yamaguchi Sensei. Então entrei no dojo enquanto seguia a minha prática do Judo.

Isto ocorreu após o retorno de Yamaguchi Sensei de Burma?

Não, isto foi antes de sua ida. O Kuwamori Dojo foi o primeiro dojo sucursal Aikikai após a guerra. Naquela época, o Doshu de Aikido Kisshomaru Ueshiba visitava o nosso dojo, nós o chamávamos então de “Wakasensei”. Pensei que ele seria um típico adepto das artes marciais, mas ele na realidade parecia um professor de universidade e era muito cortês ao falar. Ele me impressionou com os seus modos de cavalheiro. Fiquei surpreso com as suas mãos fortes e grossas. Ele era muito diferente dos professores de Judo. Falei com ele sobre vários assuntos e vim a apreciar o Aikido mais ainda.

Naqueles dias o Wakasensei ainda trabalhava na Companhia de Seguros Osaka. Eu treino Aikido desde aquele tempo. Shoji Nishio também estava presente. E Nobuyoshi Tamura tinha começado três meses antes de mim. Isto aconteceu há uns 37 anos [ca. 1954]. Desejava me tornar um uchideshi, mas isto só foi acontecer em 1961. Naqueles dias Tamura também trabalhava fora, mesmo sendo um uchideshi. Não era como hoje em dia que o dojo paga salários para seus professores jovens.

Quando conheci O-Sensei pela primeira vez eu cursava a escola secundária. Eu pratiquei no antigo Hombu Dojo. O dojo não era sujo, mas os tatames estavam bastante desgastados. O-Sensei, com sua barba branca, estava batendo papo com seus alunos. Não tinha a menor idéia naquele momento de quem era O-Sensei. O-Sensei falou comigo primeiro me dando as boas vindas enquanto as pessoas em sua volta aparentavam muita tensão. Fiquei bastante perplexo e senti um frio na espinha. Não sei se você pode chamar isto de um despertar espiritual, mas eu estava em estado de choque. Naqueles tempos eu pessoalmente visitava professores de diversas artes marciais, não só de Judo, mas todos eram muito diferentes de O-Sensei. O-Sensei tinha sessenta e poucos anos e era muito nobre. Foi uma oportunidade incrível para mim conhece-lo naquele momento. Ele me impressionou profundamente e me fez sentir que poderia abandonar tudo para ficar sob sua tutela.

Era o Wakasensei quem ministrava o maior número de aulas naquela época?

Wakasensei ensinava a aula matinal e depois seguia para o seu trabalho. Yamaguchi Sensei era quem dava o maior número de aulas.

Naquela época já existiam as aulas de manhã e à noite?

Exatamente. Mas não haviam tantas aulas no começo. O número de aulas cresceu gradativamente. Naqueles dias eu participava da aula das 8:00 às 9:00 que geralmente era dada por O-Sensei. Se apareciam dez alunos, o presente Doshu comentava como a aula estava cheia. Ele era jovem ainda. Me lembro que praticávamos kakarigeiko (treino contra ataques contínuos) como o Doshu. Hoje em dia o Aikido é conhecido, mas naquela época muita gente perguntava o que era o Aikido até mesmo em Tókio.

Quando eu era um uchideshi, O-Sensei me repreendia como muito mais freqüência do que aos outros. Eu fui um uchideshi durante mais de 15 anos e foi provavelmente por isso que ele achava mais fácil me repreender. Eu fazia o tipo desajeitado, enquanto que os outros uchideshi eram muito mais rápidos para aprender. Fui o último a permanecer como uchideshi. Em minha opinião, enquanto O-Sensei viveu a arte mudava ano após ano e estava sempre evoluindo. Eu queria observar como O-Sensei se desenvolvia. Foi por isso que fui o uchideshi que mais tempo ficou! [risos]

Aprendeu espada com O-Sensei?

Nos velhos tempos os shihan se revezavam ensinando aos domingos. Acho que O-Sensei ficou entediado um dia e disse, olhando no escritório, “Quem está aí, Saotome?” Ele me disse para trancar a porta e fechar as janelas, e eu fiquei imaginando ele estava pensando. Aí, ele me mandou pegar um bokken. “Este é um kata de espada para o uso numa luta de verdade,” ele disse e me mostrou. A sua maneira de pensar era bem antiquada. Ele tinha me mandado fechar as janelas para que ninguém lhe visse. “Você jamais se tornará um mestre,” ele disse [risos]. Eu não entendia nada. Aquele kata era um pouco diferente dos kumitachi. Ele me mostrou o kata rapidamente num espaço de 5 minutos.

Anos atrás, quando assisti o senhor treinar, Sensei, percebi que o senhor estava usando o que acredito que era a espada de bambu da Yagu-ryu. Ainda a usa nos seus treinos?

Todos os meus alunos usam. A razão pela qual uso a espada de bambu da Yagu-ryu é porque se usamos o bokken para aprender os básicos da espada e os kata, podemos machucar nossos dedos e por isso ficar com medo. Se formos golpeados por um bokken vamos nos machucar. Portanto, evitamos nos golpear. Já, se usarmos uma espada de bambu nos sentimos muito mais seguros, porque ao receber algum golpe não iremos nos machucar. Mesmo que venhamos a sentir alguma dor, não iremos quebrar nenhum osso. Então, iremos adquirir um grau de destreza com muita rapidez. Se usarmos um bokken, com certeza iremos ficar tensos. Se usarmos uma espada de bambu, podemos relaxar e praticar sem medo. Mais tarde podemos usar o bokken. Assim os alunos podem dominar o ken e os kumitachi. Porém, se treinarmos sem a menor chance de lesões, o treino poderá se tornar muito casual. Temos que ter o maior cuidado ao segurar a espada para evitar lesões. De alguma maneira não somos capazes de desenvolver o verdadeiro sentimento do kumitachi. Acaba se tornando um mero kata. Você não é capaz de harmonizar o seu ki de nenhuma maneira. Portanto, peço para os meus alunos usarem o bokken depois de terem algum domínio da espada. É uma maneira de se treinar passo a passo.

Morihiro Saito Sensei, por exemplo, organizou os movimentos de jo e ken que ele aprendeu com O-Sensei. Como são os kumitachi que o senhor desenvolveu para as “Aikido Schools of Ueshiba” (Escolas de Aikido de Ueshiba)?

A maneira de O-Sensei ensinar variava de acordo com a situação. As pessoas que foram ensinadas por O-Sensei executam o jo e o ken de formas diferentes. Como a espada de O-Sensei era a espada de Aikido, fica difícil de compreender. Você tinha que acompanha-lo de perto. Era necessário que você sistematizasse seus ensinamentos. Quando assisti a demonstração de ken e jo de Morihiro Saito Sensei no Friendship Demonstration, pensei, “Sim, O-Sensei ensinou isto também”. Mas de alguma forma era diferente. Saito Sensei organizou bem o que lhe foi ensinado. Meu método de espada e a forma de executar os kumitachi também são diferentes. Isto acontece porque as nossas experiências são diferentes.

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