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Aiki: Um estado de união

por Ellis Amdur

Aiki News #97 (Fall/Winter 1993)

Traduzido por Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo – R.J.)

O artigo que se segue foi feito com a assistência de Pavel Rott, dos EUA

Tradução - Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo – Rio de Janeiro)

Uma nota sobre terminologia: Neste ensaio, estou usando os termos aikijutsu e aikido para me referir a dois estados psicofísicos distintos de ser, e não às tradições marciais específicas que tem estes nomes. Jutsu (que significa arte/artifício/ técnica) guarda a idéia de pensamento calculado e de treino; do (que significa Tao ou Caminho) tradicionalmente guarda a idéia de ação espontânea e não calculada a serviço de um bem maior.

Na década de 1920 Morihei Ueshiba Sensei ensinou sua arte marcial a um grupo de oficiais militares de alta patente, e entre eles estava o Almirante Isamu Takeshita. Há alguns anos, eu conversei com Masao Muto Sensei, um conhecido professor de e pesquisador da história marcial japonesa, que possuía uma cópia do diário do Almirante Takeshita de suas sessões de treinamento. De acordo com Muto Sensei, entre as palavras de Ueshiba Sensei anotadas em seu diário estava o seguinte: “Aiki é o meio de adquirir harmonia com outra pessoa de modo a que ela venha a fazer o que você deseja.”.

Esta é uma afirmação sobre a qual eu meditei por muitos anos. É impressionantemente semelhante aos ensinamentos de outras artes marciais que explicam métodos do uso do kiai (aiki com os caracteres invertidos) para a mesma finalidade. Normalmente se acha que Kiaijutsu é um grito alto, mas esta é apenas sua expressão mais banal. Antes de tudo, kiai é sempre um método psicofísico de se organizar a energia e a vontade. Ao mesmo tempo, é um método para se afetar o “mundo interior” de outra pessoa. Isto pode ter vários propósitos: para compreender a intenção do outro, para enganar o outro quanto às suas intenções, ou para neutralizar os pontos fortes do oponente pela manipulação do espaço, do tempo e até da respiração. O Kiaijutsu pode ser impressionantemente sofisticado, levando muitos anos para ser dominado. Por exemplo, no Jikishinkage-ryu, uma escola de kenjutsu (luta de espadas) de meados do período Edo, existem quatro kiai, e cada um personifica uma estação. Eles não apenas tem sons diferentes (de fato, inverno é silencioso), mas os processos gerados em si e entre o emitente e o oponente são radicalmente diferentes, como as próprias estações.

Dentre os métodos que aprendi, um era escolher uma pessoa e pensar “olhe para mim” por várias vezes até que ela o faça, sem que se faça nenhum movimento, apenas enviando pensamentos gentis para essa pessoa. Por outro lado, podia pensar “não olhe para mim” enquanto estivesse fazendo algo que atraísse o olhar. Eu poderia variar meu estudo expressando outra emoção, ou modificando minha organização somática.

Outra técnica é usada em “sparring” (ou em combate), especialmente com alguém de outro ”sistema”. Esta é uma forma de kokyu-ho. Respirar não é um ato solitário, e, claro, respiração (kokyu) não é simplesmente “inalar e exalar o ar”. Qualquer tipo de relação, seja uma amizade ou um assassinato, tem seu próprio ritmo, sua própria respiração. Conforme nossa relação se desenvolve, também se desenvolve nossa respiração – tanto em suas manifestações físicas quanto espirituais. Qualquer mudança no kokyu de um indivíduo dentro de uma relação afetará o outro. Isto está sempre acontecendo em um nível inconsciente, mas pode-se alterar o kokyu intencionalmente. O grau em que o kokyu responde à nossa intenção é o grau em que o outro indivíduo se torna acessível à nossa influência. Neste método, devo copiar a respiração de meu oponente até estarmos em sincronia, e então, segurando minha respiração ou até meus pensamentos, vou “segurar” meu oponente, mesmo que apenas em um nível muito sutil. Entretanto a ”quebra” no padrão da minha respiração (ou do meu estado psicológico) estaria sob o meu controle. Então, eu poderia me mover em suki (abertura) e derrotar meu adversário.

Outros kiai eram usados para “congelar” o oponente, para parecer subitamente maior, para parecer vulnerável ou para realmente estar vulnerável e usar a” fraqueza” para vencer.

Deixe-me dar um único exemplo do uso da fraqueza como kiaijutsu. Sua natureza absurda foi escolhida deliberadamente para ilustrar como é grande e abrangente o conceito de kiaijutsu, além do mero grito; o exemplo ilustra que qualquer estado psicológico ou físico pode ser expressado desta forma para criar uma relação controlável entre dois indivíduos.

Você é confrontado por um homem enorme que aponta uma faca para a sua garganta enquanto grita ameaças e obscenidades que são como verdadeiros socos. Seu medo é tão grande que você pensa que seus olhos vão se encher de lágrimas e você não vai conseguir controlar a bexiga. Você poderia lutar uma batalha para perder (ou vencer) contra seu próprio corpo, pensando “vou me envergonhar por toda a vida se me urinar. Preferiria morrer”. Ao invés de salvar sua vida você está concentrado em manter suas calças secas.

Por outro lado, você poderia abraçar tanto seu medo quanto a vergonha e englobá-los em algo maior. Você poderia juntar o medo e a vergonha dentro de um desejo de sobrevivência, aceitando esses sentimentos como parte do que é estar vivo (portanto, são dádivas). Então você deliberadamente “solta” sua bexiga. Vendo esta evidência, seu atacante poderá rir de você, ou demonstrar desprezo, ou se afastar com nojo, e então você se move na “abertura” que se fez entre vocês e o fere violentamente, ou simplesmente foge. Seu orgulho o teria matado; este kiai usa sua fraqueza como uma arma e não como algo com o que lutar dentro de si mesmo.

Em uma certa tradição marcial, eu passei os seis primeiros meses aprendendo como servir sake ou chá a uma pessoa desconfiada, e na fração de segundo em que sua guarda estava abaixada, avançar e matá-la. Eu tive que aprender a esconder qualquer movimento ou energia que pudesse comunicar minha intenção de atacar; ao invés disso, eu deveria expressar uma receptividade profunda e sincera a um convidado honrado, para, no momento em que recebia sua confiança, destruí-lo.

Soa terrível, não? Mesmo assim, há dez anos, um viciado em drogas fora de si e armado com uma faca tomou uma criança de cinco anos como refém em Tókio. Após uma longa negociação com a polícia, ele pediu comida, que foi trazida pelo avô da criança, de mais de 70 anos de idade, que era 6º dan em kendo. No momento de entregar a bandeja de comida, ele a “derrubou” e atacou o seqüestrador com uma arma que levava escondida, salvando seu neto.

Kiaijutsu é um campo de impressionante complexidade e refinamento, e tem tantas formas de expressão quantas são as tradições marciais. Entretanto ele é, em essência, sinônimo do conceito de Ueshiba Sensei de aiki como declarado pelo Almirante Takeshita, então vou me referir a este estado essencial como aikijutsu.

As tradições marciais que Morihei Ueshiba Sensei estudou incluíram Daito-ryu, que ele ensinou em sua juventude, e eram principalmente e obviamente artes de sobrevivência, tanto para o indivíduo quanto, de maneira mais importante, para o grupo sócio-político. As pessoas eram ensinadas a fazer o que fosse necessário para garantir a sobrevivência, e “jogo limpo” não era parte da natureza do grupo. De fato, “jogo limpo” seria visto com desprezo, se não com incompreensão. Uma pessoa seria vista como um completo idiota se fosse irresponsável a ponto de dar sinais de suas intenções a alguém que poderia matar sua família, clã ou grupo político.

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