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O caso do Uke resistente

por David Lynch

Aikido Journal #117 (1999)

Traduzido por Muryllo Amalio de Souza


O presente artigo foi preparado com a gentil ajuda de Jon Aoki dos E.U.A.

Para aqueles de nós que não se sentem atraídos pela violência de forma congênita, os treinos de aikido às vezes apresentam problemas que são difíceis de ignorar. Eles vêm em forma humana e em distintos tipos de personalidade. E entre elas existe a do Uke resistente (ou relutante).

Este é o sujeito que tenta bloquear todos os seus esforços para aplicar a técnica e tem um prazer altivo em negar-se a cair. Ele dedica seu tempo no tatame em tentar provar que suas técnicas não funcionam. E algumas vezes ele consegue.

Ele pode ser novo no aikido, tendo migrado de outra arte marcial ou, pior, alguém com anos de experiência e que sabe exatamente quando se tornar um estorvo, com máxima efetividade.

Normalmente, ele parece não entender o quão sem sentido e destrutivo é seu comportamento, e nada da filosofia do aikido é absorvido por ele. Ele enxerga tudo do ponto de vista competitivo e acredita que cada técnica tem que funcionar, independente das circunstâncias. Raramente ele irá mudar seu comportamento.

Quantas pessoas têm deixado o aikido por causa dele? Quantas mulheres têm desistido da arte por causa de seu comportamento machista? Quantos instrutores honestos e sinceros ele tem feito “pendurar” seus hakama, convencidos de que não são qualificados para ensinar?

Às vezes, o uke resistente é acessível à razão e corresponde à uma pequena conversa, desde que seja feita já no início de sua carreira. Ele não deve ser confundido, no entanto, com o uke que segura com firmeza, ou ataca com sinceridade para que ambos os parceiros possam buscar e descobrir o sentido do aikido. A diferença está na atitude e na intenção.

Claro que o uke resistente pode ser manejado fisicamente, por um oportuno atemi ou um doloroso e perigoso encurtamento de uma técnica, e alguns instrutores têm recebido uma aterradora reputação por terem aplicado este tratamento olho-no-olho, mas muitos de nós não respondemos desta maneira. Normalmente, o esforço para bloquear uma técnica torna o bloqueador um alvo fácil para um soco, mas a revanche não está de acordo com os objetivos do aikido, e poderia levar a um intercâmbio que em nada difere de uma competição.

Meu próprio filho passou por um período (felizmente curto) em que se tornou um uke bastante resistente. Enquanto eu estava demonstrando lentamente uma técnica frente à classe, no meio dela ele repentinamente aplicava toda sua força para bloqueá-la. Responder com um atemi não era em absoluto uma opção, dadas as circunstâncias.

Tínhamos na classe também um campeão de levantamento de peso que costumava aplicar sua enorme força nos momentos mais inesperados. Uma vez, quando estávamos fazendo kokyuho ele repentinamente puxou meus braços em sua direção, envolveu-os com seus músculos e os segurou-os sob suas axilas. Fora golpeá-lo com a cabeça ou morder-lhe o nariz - opção que eu não considerei apropriada ou necessária – eu estava indefeso.

Sem dúvida, os leitores devem ter tido experiências parecidas e irão reconhecer essa espécie de atitude. É um tipo que representa muito bem um instrutor de artes marciais chinês que conheci em Hong Kong. Eu o visitei uma vez por sugestão de um amigo que disse que o homem ficaria feliz em encontrar-me e teria interesse em trocar conhecimentos. Mas, na oportunidade, ele foi muito suspeito e começou a interrogar-me sobre os motivos pelos quais eu lhe fui visitar. Eu estava a ponto de dar como acabado o encontro e considerá-lo uma perda de tempo quando ele disse: “Tudo bem, mostre-me algo de aikido”.

Pensando em começar com um nikyo, eu o convidei a segurar meu pulso, então ele fez um memorável comentário, sem dúvida, perfeitamente lógico do seu ponto de vista: “Por que eu faria algo tão estúpido?”. Ele, obviamente, via que o encontro tinha propósito de desafiar e de testá-lo ou de mostrar que minha técnica era superior à dele.

Infelizmente, muitos aikidoka têm a mesma atitude – errando o objetivo do treino por quilômetros e tendo falhado em ver que o aikido é defensivo, não ofensivo, e que seus objetivos transcendem o “vencer” ou “perder”. Quando você abraça o aikido, você deve deixar de lado o conceito de “ganhar” ou “perder” e focar em buscar a harmonia. Não se pode estar em ambos os caminhos ao mesmo tempo.

Ver o aikido em termos competitivos é como tentar provar algo que não pode ser provado. Ocasionalmente, até mesmo um japonês exibirá esta atitude, embora o respeito à autoridade no Japão geralmente previna isso, e a maioria dos aikidokas japoneses parecem aceitar o sistema cooperativo de treino nage-uke (o que atua – o que recebe). Um amigo japonês me contou, sob a influência de álcool, que ele adoraria por à prova, mesmo que uma única vez, as habilidades de seu sensei recusando-se à cair gentilmente todo o tempo. Ele ainda disse que estava disposto a pagar todas as suas conta do hospital! Em geral, aikidokas japoneses (não todos, claro) são mais tendenciosos a abusar de sua posição como nage, golpeando seus desafortunados e obedientes ukes.

O que me intriga não é só o fato de que as pessoas pareçam incapazes de pensar fora dos parâmetros de uma competição, mas também o fato de que elas confundem treino no dojo com a realidade. Fazer com que o uke resistente entenda isso é freqüentemente o maior desafio. (Se ao menos ele fosse embora e dedicasse a um esporte competitivo, como judô ou karatê onde ele pudesse bloquear à vontade) Aikido não é, apesar de tudo, para aqueles que sentem necessidade de defender seus egos a todo instante. Nós podemos, dentro de certos limites, sempre aprender algo tentando relacionar-se com esses controversos indivíduos, mas os limites precisam ser observados, e indo além deles pode ser contra-produtivo, para dizer o mínimo.

Treino no dojo não é questão de vida ou morte, e há muitas coisas que você não pode nem precisa fazer no contexto do treino. Da mesma forma que não pode fazer ikkyo em um elefante ou kokyu-ho em uma parede de concreto, há alguns ukes que não podem ser projetados contra sua vontade sem que o nage recorra a táticas perigosas ou violentas, deixando de lado, no processo, os princípios do treino do aikido.

Como você reage depende do seu treinamento e sua filosofia pessoal: uma risada ou mesmo um sorriso pode ser suficiente. Embora o impulso de sugerir, de uma forma ou outra, que esses ukes vão embora possa ser muito mais forte, nós precisamos dar um metafórico passo atrás (o que também é sensato do ponto de vista técnico) e calmamente recusar-se a seguir o jogo deste resistente uke. Mesmo que você não possa fazer nada com ele, isso realmente não importa, uma vez que isso não passa de um jogo. Paradoxalmente, a percepção deste fato as vezes é tudo que precisamos para que a técnica funcione, mas você tem que aceitar o fato de que não pode vencê-los todos.

Quando é sua vez de ser uke e você sente que poderia parar o movimento do seu companheiro, você deve resistir à tentação e permiti-lo que complete a técnica. O que tem a perder? O que você ganha, por outro lado? Certamente você mostraria ao seu companheiro as falhas de sua técnica quando o bloqueia, mas há outras maneiras positivas de encorajá-lo e ajudá-lo a melhorar.

Alguns instrutores precedem sua demonstração da técnica com uma versão realista, em lugar da versão comum do dojo. Este é um enfoque do tipo policial mau-policial bom onde você explica como quebrar um braço aplicando ikkyo, esmagar uma cabeça com shihonage ou destruir um pulso com sankyo…. “Mas, no dojo, nós fazemos dessa maneira.” Embora esteja ok até certo ponto, este enfoque se presta à mentalidade competitiva e pode tornar-se em um fim em si mesmo, em detrimento ao espírito do aikido.

A mentalidade competitiva pode invadir o dojo como um vírus contra o qual uma atmosfera de treinamento construtiva e harmoniosa oferece pouca imunidade. Os recém chegados sentem-se intimidados e não abrem a boca, e freqüentemente o instrutor sente-se incapaz de fazê-lo sem sentir-se mal. Ele pode sentir que deveria ser capaz de lidar com tudo isso, assim como O-Sensei aceitava os desafios de todos que vinham, nos tempos idos.

É muito melhor, eu acho, aceitarmos que não somos O-Sensei e que não estamos nos velhos tempos. É responsabilidade do instrutor proteger seus alunos das pessoas ignorantes, e assegurar que o dojo seja um local que se possa aprender algo e onde os alunos tratem os outros com mútuo respeito, e não um campo de batalha para egos de pessoas superficiais empenhados em fazer melhor que o colega do lado. O dojo precisa ser um santuário onde se possa experimentar com segurança idéias e técnicas que almejam um resultado totalmente diferente.

A diferença entre treino e realidade (e entre um esporte competitivo e um caminho marcial) é bem representado pelo aikidoka que respondeu à um desafio de um judoka apresentando-se com uma espada atravessada na faixa. Nos dias de hoje, porém, não é muito prático decidir isso com espadas já que taijutsu parece inadequado, mas sim com outra arma, freqüentemente subestimada, que é a palavra proferida, a conversa. Apesar das tradições estóicas do budo, que valorizam o tipo duro e calado, creio que é adequado conversar quando se encontra um uke resistente e intolerante. Isto não significa que seja fácil de fazer e requer determinação. Pode ser que não mude para sempre, mas podem tornar a vida mais tolerável para muitos membros do dojo, principalmente aqueles que querem aprender aikido e não têm interesse em competir. Se deixá-lo livre, o uke resistente irá se tornar mais e mais resistente.

Infelizmente, o sistema hierárquico tende a intimidar os iniciantes, que são aqueles que tem mais possibilidades de serem afetados pela resistência e atropelos, mas eu creio que se calar quando alguém está aplicando força desnecessária no dojo é uma atitude inadequada e ultrapassada. Além do mais, é sempre melhor usar sua língua ao invés dos punhos, e usar seu cérebro antes de pensar por alguém, ou, antes que alguém pense por você.

Velhas atitudes são difíceis de acabar, como comprovei em uma recente visita ao Japão. Eu estava sentado com um grupo de estudantes em um dos dojos em que treinei quando alguém mencionou meus artigos do Aikido Journal. O sensei que estava presente disse: “É interessante como hoje em dia praticamente qualquer um pode escrever sobre aikido, antigamente somente os professores mais graduados ousavam fazê-lo”.(Ele, na verdade, usou as palavras em japonês “eram permitidos a fazê-lo”, o que diz bastante.)

Não estou certo que este comentário estava direcionado à mim (se a carapuça serve, vista) ou era apenas uma generalização. Entretanto, creio que qualquer um tem o direito de falar ou escrever sobre aikido, independente da graduação ou experiência. Cabe ao ouvinte ou leitor decidir quanta credibilidade deve dar àquelas palavras. Liberdade de expressão é apenas um dos pilares da democracia com que muitos japoneses da velha geração parecem ter dificuldades.

Quando se trata de reflexões místicas estilo O-Sensei e qualquer tentativa de explicá-las em palavras, eu concordaria que quem fala não conhece e eu seria o primeiro a aceitar qualquer castigo divino que me cairia em cima se alguma vez fingisse ter acesso a esse tipo de conhecimentos. Eu suspeito que tal castigo não seria tão dramático quanto um raio, mas seria melhor do que se tomasse a forma de uma gradual passagem para uma ignorância ainda maior. Eu acabaria como o proverbial homem sem tocha, no depósito de carvão, procurando pelo gato preto: - Não está aqui! Neste sentido, a ignorância é sua própria recompensa. É o risco que se tem que correr quando se abre a boca acerca de qualquer coisa, mas isto não deveria deter ninguém que quisesse protestar ante violações manifestas do espírito do aikido.

Depósitos de carvão à parte, há um lado negro no aikido o qual é tipificado pelo uke resistente, e se os praticantes mais graduados ficam indiferentes sobre eles, então é importante para os iniciantes e aqueles que podem ver isso claramente mostrar isso, e isso significa que podem. Eles tem tanto direito quanto qualquer um de falar.

Experiência não leva automaticamente à iluminação, e há quem diga que o sensei fala absurdos enquanto algumas pessoas comuns podem oferecer muito mais sabedoria. É uma triste suposição presumir que pessoas com larga experiência em aikido são de alguma forma superiores. De mesma forma, qualquer regra não escrita que impede uma pessoa de protestar sobre abuso de poder dos que estão acima deveria ser jogado no lixo das tradições inúteis.

O perigo de tornar-se psicologicamente insensível é que a violência aumenta cada vez que é ignorada, e precisamos apenas olhar para a morte e destruição que agora está quase banal em todo o mundo para ver o resultado final desta atitude.

O antigo ditado romano si vis pacem para bellum (se queres paz, prepara-te para a guerra) é outra amostra de sabedoria tradicional que não combina com os casos observados. Preparação para a guerra sempre irá levar à guerra, e é deprimente ver que isto tem sido levado a cabo, mesmo quando falamos.

Nós devemos agradecer a sorte que temos de praticar aikido, onde se manifesta o aspecto oposto do espírito humano.

O mínimo que devemos fazer é nos esforçarmos para manter a paz e a harmonia no nossos treinos de aikido, por mais insignificante que possa parecer em comparação com a magnitude do horror dos acontecimentos destrutivos globais atuais.

Há conflitos mais que suficiente no mundo.

Vejamos se nós encontramos outro caminho.