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Morihei Ueshiba & Morihiro Saito

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por Stanley Pranin

Aikido Journal #101 (1994)

Traduzido por Carla Valverde


O seguinte artigo foi realizado com a amável colaboração de Dan Palmer do Reino Unido.

Poucas pessoas investigaram as origens do Aikido com tanto cuidado como Stanley Pranin, o editor-chefe da Aiki News. Nestas séries, originalmente escritas para publicação na revista japonesa Wushu, Pranin relembra alguns aspectos da longa carreira do fundador Morihei Ueshiba, através da sua associação aos seus professores e estudantes mais notáveis. A oitava parte deste artigo debruça-se sobre Morihiro Saito, o responsável do AikiShrine, em Iwama, e que muito fez para classificar e sistematizar o Aikido que aprendeu durante os quinze anos que estudou com o fundador.

O processo de diversificação técnica no aikido teve inicio ainda antes da morte do seu fundador Morihei Ueshiba. Uma das tendências dominantes do aikido actual é a versão “leve” do Doshu, que valoriza as técnicas circulares ou seja, executadas em ki no nagare do Doshu Kisshomaru Ueshiba, do Aikikai Hombu Dojo, a chamada “escola-dura” de Yoshinkan Aikido liderada por Gozo Shioda Sensei, a importância dos conceitos de “ki”, de Shinshin Toitsu Aikido, tal como foi desenvolvido por Koichi Tohei Sensei, o sistema eclético de Minoru Mochizuki Sensei do Yoseikan Aikido e o sistema de Aikido desportivo que inclui a competição criado por Kenji Tomoki Shihan. A todos estes deve ser acrescentado o currículo técnico formulado pelo Shihan Morihiro Saito, 9º dan Aikikai. A abordagem de Saito Sensei apoia-se na inter-relação entre taijutsu e bukiwasa (aikiken e jo) que se tornou um modelo básico de estudo para muitos praticantes de Aikido em todo o mundo. Este facto deve-se sobretudo ao sucesso dos seus livros técnicos e ao seu grande número de viagens para fora do Japão.

Apresentação ao Aikido

Morihiro Saito era um jovem magro e hesitante, de apenas 18 anos quando conheceu Morihei Ueshiba, em Julho de 1946, na adormecida aldeia de Iwama. Isto aconteceu pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial e a prática das artes marciais era proibida pelo GHQ (General Headquarters, termo genérico para designar “Centro de Comando Militar Americano”). O Fundador estivera “oficialmente” retirado em Iwama durante alguns anos, apesar de na realidade se encontrar totalmente mergulhado em intenso shugyo, recolhido neste ambiente isolado. De facto, foi em Iwama, durante e após a Segunda Guerra Mundial que Morihei Ueshiba aperfeiçoou o Aikido moderno.

De entre os poucos uchideshi desse tempo de escassez, encontravam-se Kisshomaru Ueshiba, Koichi Tohei e Tadashi Abe. Estes, pouco encorajavam o jovem Saito, que ainda teria de fortalecer silenciosamente o seu treino, muitas vezes doloroso. Saito Sensei relembra aqueles tempos em que praticava suwariwaza no chão de madeira do dojo, o que deixava continuamente os seus joelhos em ferida. Para piorar as coisas, como aluno recente no dojo, ele teria muitas vezes de receber as técnicas vigorosas do agrado dos seus sempais Koichi Tohei e Tadashi Abe.

Treinar ao lado do fundador

Mas, gradualmente a sua perseverança foi sendo recompensada e em poucos anos, Saito Sensei tornou-se um dos alunos mais relevantes do dojo. Saito tinha a vantagem de trabalhar para a Rede Nacional Ferroviária em turnos de 24 horas, pelo que lhe restava muito tempo para estar ao lado do seu mestre. Além das horas que Saito passava a treinar, Saito Sensei também ajudava o fundador em numerosas tarefas e nos trabalhos da quinta. Apesar do trabalho ser físicamente exigente e do fundador ser um mentor rigoroso, a sua recompensa foi a oportunidade única de ser o seu parceiro particular, principalmente na prática do aikiken e jo, ao longo de um período de mais de 15 anos. Normalmente, Morihei Ueshiba treinava armas durante as primeiras horas da manhã, quando outros alunos não podiam estar presentes. Assim, foiem parte devido ao seu inato talento marcial, á sua perseverança e em parte devido ao seu horário de trabalho flexível que Morihiro Saito se tornou o herdeiro do legado técnico de Morihei Ueshiba.

No final dos anos 50, Saito Sensei havia-se tornado muito vigoroso e um dos shihans mais respeitados do Aikikai, ensinando regularmente no dojo de Iwama durante a ausência de Ueshiba Sensei. Além disso, a partir de 1961, ele começou a ensinar uma vez por semana no Aikikai Hombu Dojo em Tokyo. Saito Sensei era o único, para além do fundador, a quem era permitido ensinar bukiwasa. As suas aulas eram muito apreciadas e muitos estudantes vinham de Tóquio ao sábado de manhã para praticar taijutsu e aikiken e jo. Quando o fundador faleceu, em Abril de 1969, Saito Sensei tornou-se o dojo-cho do dojo de Iwama, assim como ficou encarregado de tratar do Altar do Aikido, que Ueshiba Sensei havia construído perto do dojo.

Publicação de livros técnicos e viagens ao estrangeiro

Foi a publicação iniciada em 1973 de um livro que viria ser o primeiro de uma colecção de cinco volumes de técnicas em japonês e inglês que estabeleceu a reputação de Saito Sensei como sendo o mais técnico de entre todos os shihan. Estes volumes contêm centenas de técnicas, desde taijutsu, aikiken e jo e kaeshiwaza. Estes manuais técnicos introduziram um sistema de classificação e a terminologia de técnicas de aikido que atingiram grande popularidade. Em simultâneo, foram editados filmes que complementaram os livros e que foram entusiásticamente recebidos.

Iwama: Mecca para praticantes estrangeiros

A popularidade dos seus livros e as suas extensas viagens ao estrangeiro tornaram o dojo de Iwama a Mecca dos estudantes estrangeiros que desejam praticar intensamente e adquirir experiência no uso do aikiken e jo. Ao longo dos anos, literalmente, centenas de aikidocas vieram dos seus países, de tal forma que muitas vezes, o número dos praticantes estrangeiros superava o dos seus homólogos japoneses. Talvez o segredo do sucesso de Morihiro Saito Sensei entre os entusiastas estrangeiros seja a sua abordagem única á arte, a mistura de tradição e inovação. Por um lado, ele encontra-se totalmente comprometido em preservar intacto o legado técnico deixado pelo fundador. Isto para dizer que Saito Sensei se vê a si próprio promovendo um sentido de continuidade que permite aos praticantes de hoje em dia compreeenderem as origens do Aikido. Ao mesmo tempo, ele dispendeu grande criatividade para ordenar e classificar a riqueza de conhecimentos técnicos deixados por Morihei Ueshiba, de forma a revelar a sua lógica interna e a facilitar a sua transmissão a futuras gerações. A clareza dos seus métodos de instrução foi bem recebida em países estrangeiros.

Sistema de certificados Aikiken e jo

Saito Sensei também institui um novo sistema de certificação de instrutores de aikiken e jo, pelo que pergaminhos tradicionais escritos á mão eram oferecidos áqueles que demonstrassem certos níveis de competências no uso das armas. Separado do sistema de graduações de dan, o objectivo do programa é preservar as técnicas de ken e jo desenvolvidas pelo fundador e que estão fortemente relacionadas e são inseparáveis do aikitaijutsu. Os pergaminhos incluem os nomes e as descrições detalhadas das técnicas de aiki com armas e são elaborados a partir do mokuroku oferecido nas escolas tradicionais antes da introdução do sistema de dan. Este método de certificação é pouco usual nas artes marciais modernas.

Hoje, Morihei Ueshiba continua com um horário preenchido, lecciona as classes da manhã dedicadas ao aikiken e jo e as classes da noite são dedicadas á prática geral, onde ele ensina técnicas de taijutsu. Também são feitos alguns campos de treino no dojo de Iwama, uma prática que não era feita desde os tempos em que o Fundador ainda era vivo. Ele continua a apurar a sua técnica e a criar novas routinas de treino que tornem os seus métodos de ensino mais efectivos.

Hoje, no mundo do Aikido, existe mais do que nunca uma tendência crescente para encarar a arte como um “sistema de saúde” e a eficiência das técnicas é praticamente inconsequente. Neste contexto, o poder e a excelência da técnica de Morihiro Saito resiste com grande alívio e é devido aos esforços de Saito e de outros que o Aikido pode reclamar o direito de ser visto como uma verdadeira arte marcial.