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Expandindo e Refinando a Noção de Autodefesa

por Stanley Pranin

Aikido Journal #103 (1995)

Traduzido por Arthur de Paiva Napoleão

A Autodefesa pode ser definida como a proteção de uma vida e/ou posse contra um ataque. Em casos em que pessoas tomam medidas ativas para se protegerem e proteger as suas posses, o medo é normalmente o maior fator motivante. Tome como exemplo um jovem que decide se juntar a uma escola de artes marciais ou a um curso de defesa pessoal. Normalmente ele é guiado pela apreensão de possuir alguma vulnerabilidade percebível como ser pequeno ou fraqueza física. Talvez ele tenha sido vitima de um ataque nas mãos de um valentão que o injuriou ou humilhou aos olhos de seus amigos. Quando eu era adolescente, eu presenciei um incidente bastante violento. Apesar de eu não ter sido a vitima, o medo que eu senti vendo a pratica da violência de perto foi um fator decisivo que me motivou a me juntar a um dojo de Aikido.

Ou considere uma jovem em choque que foi vitima de abuso físico nas mãos de um homem, e que resolve aprender defesa pessoal em uma tentativa de eliminar o medo de um futuro ato de agressão. Em tais situações, as vitimas são levadas à ação pelo medo. Suas respostas são motivadas por um instinto de autodefesa talvez junto com o desejo de vingança e seus agressores são transformados em inimigos. É um modelo psicológico comum envolvendo a dualidade de vitima e agressor.

Ao longo do caminho, no entanto, o treinamento nessas disciplinas marciais se pode produzir vários resultados inesperados. Em adição a adquirir habilidades de autodefesa, os praticantes melhoram seu condicionamento físico e sua percepção. Suas habilidades recém adquiridas vêm de mãos dadas com uma mudança psicológica que transforma suas motivações iniciais em outra coisa além de medo e desejo de vingança. Eles podem tomar o primeiro passo em assumir completa responsabilidade por suas vidas através da percepção de que eles têm o poder de prevenir tais situações de se repetirem. Eles descobrem que a disciplina e o esforço deles tiveram resultados melhores que o esperado, dando benefícios que se espalham sobre outras áreas de suas vidas.

Embora a noção de autodefesa primeiro traga a mente a idéia de proteção da vida e propriedade, é algumas vezes usada metaforicamente para descrever cursos de ação contra se tornar uma vitima em outras áreas da vida. Medos nascidos de ameaça física têm paralelos psicológicos em varias áreas onde nós sentimos que a nossa segurança é ameaçada.

Tome autodefesa financeira, por exemplo. Existe até um ´´best-seller“ sobre esse assunto. Praticamente todo mundo já passou por problemas financeiros na vida. Eu ainda lembro da época em que eu tentei operar um dojo como um negócio em uma cidade pequena. Era um esforço exaustivo mês após mês tentar pagar as contas. O efeito psicológico que a insegurança financeira geralmente tem é devastador sobre todas as outras áreas da vida de alguém. Pessoas que se encontram com problemas financeiros podem procurar um caminho de saída dos seus dilemas através da pratica de disciplina monetária. Eles aprendem a analisar como gastam sua renda em mínimos detalhes, onde podem reduzir seus gastos e como economizar e investir com sucesso. Quando eles começam a realizar seus objetivos financeiros um por um o medo de empobrecer é substituído por um aumento da autoconfiança. A liberdade da ansiedade abre a porta para muita felicidade e o resultado é um espaço psicológico que pode até leva-los para o engajamento em atividades de caridade. Pessoas que através de persistência e força de vontade conseguem segurança financeira e que conseqüentemente possuem pouco medo de ´´ataques financeiros“ são os equivalentes psicológicos dos faixas-pretas em artes marciais que se sentem confiantes de suas habilidades para defender a si mesmos contra um ataque físico.

Esse conceito expandido de autodefesa é obviamente aplicável na área da defesa verbal. Todo mundo já foi vitima de um interlocutor agressivo em um contexto social. Pode ser um parente, professor, amigo ou qualquer um que possa falar. Seja intencional ou não, esses ´´atacantes verbais “ causam feridas psicológicas que provocam sofrimento igual ao sofrimento criado por feridas físicas. Vitimas que acumularam o dano psicológico desse tipo de abuso interpessoal tem varias opções. Eles podem, por exemplo, começar a trabalhar com um terapeuta e tentar descobrir o por que de serem vulneráveis a tais ´´ataques verbais“ e como lidar com eles no futuro. Alem disso eles podem começar a apreciar o seu próprio valor e qualidades – o que é necessário para promover uma confiança em um contexto social - um entendimento de semântica verbal pode levar ao desenvolvimento de técnicas úteis para lidar com ´´ataques verbais“ .

Eu ainda lembro a uns vinte anos atrás como eu fui muito beneficiado por um estudo de lógica formal que cobriu a estrutura da linguagem e o significado das palavras. Um dos meus tópicos favoritos lidava com ´´mentiras informais“. Esse estudo explicou como expressões aparentemente lógicas na verdade não possuíam lógica alguma. Cada uma dessas ´´expressões falsas“tinham nomes latinos. O que eu achei extremamente interessante era que uma pessoa poderia encontrar numerosos exemplos desse tipo de expressão sonoramente plausível usado no dia- dia, na propaganda, política ou apenas conversando com os amigos. Por um tempo até eu conseguir me acostumar internamente com esses conceitos, eu me divertia dizendo mentalmente ´´ argumentum ad populum“, ´´argumentum ad baculum“, ´´ argumentum ad miseriam“, etc, para classificar esses exemplos de argumentação errada sempre que eu encontrava exemplos. No entanto, eu ganhei mais do que esperava quando eu me descobri analisando algumas de minhas próprias observações apenas para encontra–las cheias de ´´ buracos lógicos “ ! Em qualquer evento, o veneno social gerado por um entendimento de como as pessoas usam e abusam da fala pode fazer indivíduos comunicadores e ajuda-los a se defender da ´´agressão verbal“.

Ainda outro exemplo de autodefesa como uma metáfora para transformar medos básicos, ´´defender a saúde“. Muitas pessoas na meia idade são extremamente preocupadas com o estado da sua saúde. Nós podemos corrigir essa situação, e as gerações mais jovens podem prevenir isso de acontecer, fazendo exercícios físicos e tendo hábitos alimentares saudáveis em nossas vidas. Para a defesa da saúde, deveriam ser acrescentados exames regulares para monitorar o estado do nosso corpo com o passar do tempo. Saber que você é saudável e possui a habilidade de regular a condição do seu corpo pode prover grande satisfação e prova ser um ótimo redutor de stress.

Nós todos podemos encontrar caminhos para aprender a constantemente identificar nossos medos e insuficiências e então tomar medidas corretivas. Indivíduos que possuem o habito de monitorar sinceramente todas as suas ações vão traçar um caminho para a mudança que se transforma em uma habilidade que vai permitir o avanço progressivo em direção a felicidade que todos nós procuramos.