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O Pioneiro Silencioso: Shuji Maruyama Sensei, Fundador do Kokikai

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por Gaku Homma

Published Online

Traduzido por William Soares (Nippon Kan Brasil)

Shuji Maruyama Sensei estava em sua estrada novamente, desta vez a caminho de Seattle. Nós nos dirigimos para o aeroporto com os primeiros raios da manhã. O carro estava em silêncio enquanto ele olhava para fora da janela, estudando a passagem do cenário. Suavemente, como se estivesse falando apenas para si mesmo, ele disse, “A melhor coisa em Denver são as nuvens. Como aquela nuvem ali. Veja. Ela tem a liberdade de se mover, de mudar de forma, de deslizar suavemente pelo céu. Aquela se parece com um dragão. Ela parece que está viva. Ela tem uma liberdade infinita. A liberdade de se mover.”

Eu não sabia do que ele estava falando. Durante os três dias de sua passagem em visita a Denver ele não havia expressado pensamentos ou sentimentos pessoais similares. Isso me fez pensar sobre uma estória que ouvi ter sido escrita pelo famoso espadachim japonês Musashi Miyamoto, fundador da escola de luta de espada Niten Ichi Ruy Kenjutsu e autor do Livro dos Cinco Anéis.

Nessa estória Musashi Miyamoto estava falando a respeito de sua vida. “Minha vida tem sido longa e dura, e cada dia tem sido vivido no limite entre a vida e a morte. Eu tenho lutado muitas batalhas. Meu caminho tem sido preenchido com obstáculos e perigos que encheram a minha mente com confusão e tristeza. Às vezes o meu caminho tem sido tão estreito quanto o de um desfiladeiro que me cerca. E, no entanto, mesmo num desfiladeiro, se você olhar para cima, o céu está sempre ali com você. Eu posso escapar para o céu com os olhos de minha mente e me tornar livre como as nuvens que passam vagarosamente pelos conflitos e obstáculos que formam as muralhas que me rodeiam.”

Naquele momento, dentro do carro a caminho do aeroporto, eu tive uma revelação. Algumas vezes, eu acredito, o entendimento ocorre em simples revelações.

Eu gostaria de lhes dizer o que sei a respeito de Shuji Maruyama Sensei, a quem me refiro como o “pioneiro silencioso do Aikido.” À medida que pego a minha caneta para escrever a minha mente se volta para lembranças que possuem agora cerca de 40 anos de idade.

Há mais de 400 anos atrás, a família Satake era a família daimyo governante na área de Akita, no nordeste de Honshu. Tudo o que restou de seu castelo – o caminho de pedras destruído, fossos e jardins – se tornou um parque, um parque que conheci bem quando menino. Nos olhos de minha mente eu vejo um jovem se aproximando. À medida que avança, ele se esforça para carregar alguém que se agarra fortemente às suas costas. “Seja paciente”, ele aconselha. “O hospital não está longe agora. Nós chegaremos lá logo.”

Era a primavera de 1963. O jovem avançando o caminho era Maruyama Sensei, que tinha, então, 26 anos de idade. O menino agarrado às suas costas era eu, Gaku Homma.

Maruyama Sensei havia sido enviado à Akita em uma missão pela sede do Hombu dojo da Aikikai para ensinar aikido. O aikido não era muito conhecido em 1963, e era a missão de Shuji Maruyama introduzir a arte na longínqua cidade nordestina de Akita. Maruyama Sensei iniciou o que se tornou a filial da Aikikai em Akita naqueles longínquos anos.

1962 Maruyama Sensei ensinando em Akita.

Com sua energia e personalidade carismática, Maruyama Sensei logo atraiu um bom número de estudantes seguidores. Eu era um daqueles estudantes. Ele foi um daqueles que abriram os meus olhos para o aikido. Eu havia praticado Judô dos sete aos doze anos de idade. Então eu encontrei Maruyama Sensei, que me persuadiu a mudar para o aikido. Antes de encontrá-lo ele já ensinava em Aikita por dois anos. Os trinta blocos de tatame do dojo no qual ele ensinava estavam bem pertos de minha casa. De fato, era no mesmo terreno da casa de minha família.

Depois de me ligar ao dojo de Maruyama Sensei eu o visitava quase todos os dias. Em parte porque o dojo ficava próximo à minha casa. Eu o visitava mesmo nos dias em que eu não praticava. Depois de um tempo, Maruyama Sensei se tornou como um irmão mais velho para mim, e eu era como um irmão mais novo para ele.

Quando Maruyama Sensei veio para Akita inicialmente, a cidade não possuía dojos. Ele começou do zero, trabalhando e praticando arduamente. Sendo o único Sensei de aikido na área, ele tinha muita liberdade em vários aspectos. Por outro lado, era um posto solitário. Ele não tinha o conforto de uma hierarquia de pares tal como ele havia tido em Tóquio. Nos dias em que ele não ensinava, eu me tornava o seu parceiro de prática. O treinamento era muito duro, tão duro que, às vezes, me dava vontade de chorar.

Carregar-me nas costas pelo caminho do parque do castelo era parte do treinamento de Maruyama Sensei. Ele não era muito grande, então o propósito desse treinamento era o de torná-lo forte. A viagem ao hospital era um disfarce a fim de evitar olhos curiosos. O hospital estava localizado perto do limite do parque do castelo, então, de vez em quando, tínhamos que usar o nosso disfarce. Eu era o mais constrangido porque eu tinha que fingir dor e ferimento.

No dojo, Maruyama Sensei tinha cinco latas de galão cheias de cascalho. Nós freqüentemente enfiávamos nossos dedos estendidos nessas latas para torná-los fortes. Nós esvaziávamos sacos de palha de arroz utilizados para empacotar carvão e os enchíamos com areia para utilizá-los como sacos para socos. Nas paredes havia tatames velhos pendurados, que eram utilizados para a prática de lançamento de shuriken (facas japonesas próprias para serem lançadas). Nós praticávamos diariamente, repetidamente, com as latas cheias de cascalho, sacos de areia e tatame. Para mim, na idade de 13 anos, aquilo era um sonho que se tornava realidade.

No início da década de 60, o Japão estava começando a se recuperar dos destrutivos efeitos da Segunda Grande Guerra. A economia estava se fortalecendo, e muitas famílias foram apanhadas pelo desejo de aquisição de bens materiais. Não era raro ambos os pais trabalharem, muitas vezes até tarde da noite, para adquirirem os novos luxos de uma era moderna – televisores, aparelhos domésticos e novos carros. Quando os jovens japoneses terminavam a escola em Akita e em outras incontáveis pequenas cidades, eles se dirigiam para Tóquio e outras cidades a fim de fazerem fortuna. Os únicos que ficavam para trás eram os filhos mais velhos, que estavam destinados a se tornar a próxima geração de chefes de família.

Tomar conta de crianças em casa era um empecilho a esses novos desejos por riqueza material, e muitas crianças em idade escolar tinham que se cuidar por conta própria. O dojo de Maruyama Sensei se tornou uma Meca para estudantes da escola média, do primeiro grau e de faculdade, bem como para alguns adultos trabalhadores. Em um tempo no qual a sociedade japonesa se movia rapidamente em busca de ganhos materiais, Maruyama Sensei nadava na direção oposta. Ao invés de permanecer em Tóquio depois de terminar a faculdade para seguir uma carreira promissora, ele deixou a grande cidade por Akita, para fundar um pequeno, mas popular dojo de aikido. Sua decisão despertou o respeito e o encantamento daqueles que também foram deixados para trás e se tornaram seus estudantes. Eles se sentiam especiais pelo fato de alguém de Tóquio ter tido interesse naquele povoado tão pequeno. Por isso, ele era muito apoiado pelas pessoas de Akita.

Para Maruyama Sensei, no entanto, o sucesso de Akita não estava isento de arrependimentos. Ele freqüentemente pensava em seus companheiros de Tóquio, e em seu coração ele questionava profundamente o caminho que havia escolhido para si. Seus amigos, ele pensava, estavam aprendendo mais do que ele e tinham a chance de ensinar no exterior. No auge do sucesso de seu dojo em Akita – depois de eu ter treinado com ele apenas dois anos – era a hora de Maruyama Sensei dizer adeus. Era hora dele retornar à Tóquio e ir além.

Em março de 1966, ventos frios castigavam nossas costas enquanto permanecíamos de pé no deck de observação do aeroporto de Haneda. Naqueles dias não havia rampas de passagem cobertas, e nós permanecemos do lado de fora para nos despedirmos de Maruyama Sensei. Ele estava partindo para a América. Eu tinha vindo de trem de Akita na noite anterior para essa ocasião memorável. Eu, obviamente, naquela idade não tinha dinheiro, e até hoje me surpreendo de meus pais terem me dado dinheiro e permissão para viajar até Tóquio para essa despedida. Aquilo era o reflexo da boa consideração de Maruyama Sensei, mesmo aos olhos de meus pais.

1966 Aeroporto internacional de Haneda.
Maruyama Sensei viaja para os Estados Unidos pela primeira vez.
Ele está em pé na escada de entrada traseira.

Maruyama Sensei havia sido oficialmente enviado pelo Hombu dojo da Aikikai para Cleveland, Ohio, a fim de ensinar aikido. Esta também era a escolha de Maruyama Sensei. Ele agora tinha um novo desafio. Hoje em dia, voar para os Estados Unidos do Japão é muito comum, mas naqueles dias a viagem era muito cara e o desafio de mudar de país e cultura era muito intimidador.

Com a bolsa de seu gi sobre um ombro e a sua bolsa de bokken em sua outra mão, ele acenou adeus e desapareceu dentro do avião. (Naqueles dias se era permitido carregar bokken e jo dentro de aviões.)

Nos seis anos seguintes, eu recebi uma carta ocasional de Maruyama Sensei. Na minha juventude, eu não tinha certeza de como endereçar e enviar uma carta para um lugar tão longe como os Estados Unidos. Os anos se passaram. Então, uma carta chegou anunciando que Maruyama Sensei estava voltando para casa. A sua mãe havia falecido e ele estava retornando para prestar suas homenagens póstumas.

Depois dos serviços familiares, Maruyama Sensei retornou à Akita e permaneceu em minha casa durante dois meses. Eu acho que aquele retorno à Akita foi como voltar para casa para ele. Durante a sua estadia ele me confidenciou que os últimos seis anos nos Estados Unidos haviam sido muito difíceis para ele. Quando eu o vi embarcando no avião seis anos antes, meus únicos pensamentos a respeito dos Estados Unidos eram o de um sonho adorável. O que eu soube de Maruyama Sensei foi que a sua vida na América não era aquilo que eu havia imaginado.

Quando Maruyama Sensei chegou em Cleveland pela primeira vez, a América estava vivenciando um boom de artes marciais iniciado por Bruce Lee. O lugar no qual ele ensinava em Cleveland se parecia mais um supermercado de artes marciais do que um dojo. Muitas aulas de artes marciais diferentes eram oferecidas, algumas vezes ao mesmo tempo. Quando as pessoas vinham para o dojo elas geralmente vinham para desafiar os seus instrutores, não para aprender com eles. Não era um ambiente confortável para a prática. Duas semanas depois de chegar em Cleveland, Maruyama Sensei escreveu para o seu patrono, Koichi Tohei Sensei, e lhe disse que queria voltar para casa. (Naquele tempo, Koichi Tohei Sensei era o Shihan Bucho, ou Instrutor Chefe na sede do Hombu dojo em Tóquio. Ele fundou o ShinShin Toitsu Aikido, com o qual ele ainda permanece envolvido nos dias de hoje.)

Não era tolerável, no entanto, que um instrutor oficial da Aikikai retornasse ao Japão depois de apenas duas semanas. Resolvendo perseverar, Maruyama Sensei permaneceu em Cleveland, combatendo elementos por mais dois anos e começando a desenvolver o seu próprio sentido e estilo de ensinar. Logo depois, ele mudou a sua base de operação para Filadélfia.

Naqueles dias remotos, não havia federações ou organizações estruturadas de aikido. O ensino de aikido não havia sido formalizado, e o aikido estava sendo introduzido na América de diversas maneiras. De forma muito interessante, um modo era através de homens de negócios japoneses que eram transferidos de Tóquio para filiais em Nova York e outras cidades do Leste. Uma vez estabelecidos nos Estados Unidos esses homens de negócio formavam os seus próprios clubes de prática de aikido, e os membros dos clubes se espalhavam pela comunidade local.

Quando Maruyama Sensei chegou em Cleveland, o falecido Tokuji Hirata Sensei estava ensinando aikido em San Diego. Yoshimitshu Yamada Shihan (Instrutor Chefe da USAF, a Federação de Aikido dos Estados Unidos) veio para Nova Iorque primeiro em um intercâmbio de estudante universitário e depois como um instrutor de aikido. Depois de Maruyama Sensei ter sido enviado pelo Hombu dojo da Aikikai para Cleveland, Kanai Sensei foi enviado para Boston. Maruyama Sensei e Kanai Sensei subseqüentemente autorizaram Imaizumi Sensei e o falecido Toyoda Sensei. Esses homens foram os primeiros pioneiros do aikido nos Estados Unidos.

O falecido Akira Tohei Sensei e Mitsugi Saotome Sensei não chegaram aos Estados Unidos neste período inicial de desenvolvimento. Durante o meu tempo com Maruyama Sensei em Denver ele falou da chegada desta segunda onda de instrutores. Em suas palavras, “As experiências desta segunda onda de instrutores nos Estados Unidos foi tão diferente quanto frente e verso ou céu e terra, comparada aos primeiros pioneiros. É dito que muitos estudantes hoje não se dão conta disso e acreditam nas palavras floreadas de paz e harmonia que lhes tem sido ensinadas. Não era assim que as coisas eram no início, o que era ensinado pelos primeiro pioneiros.”

Quando Maruyama Sensei ficou em minha casa depois do falecimento de sua mãe, ele comeu apenas natto, ovos, tofu, sopa miso e arroz. Comida japonesa muito, muito simples que ele parecia apreciar imensamente. Para mim, era fácil cozinhar, e eu não reclamava. Eu não pude evitar, no entanto, de perguntá-lo sobre a sua dieta. Ele me explicou (e eu mesmo passei pela experiência) que enquanto ele esteve fora – especialmente durante os períodos difíceis – ele freqüentemente sonhava com comidas feitas em casa. Ele me falou a respeito de ter vivido em uma pensão em Cleveland. As refeições servidas ali não lhe agradavam de forma alguma, e ele se acostumou a retornar ao seu quarto e jogar água quente de torneira sobre macarrão instantâneo. Porque não era permitido cozinhar no quarto, esta era a única maneira de se preparam macarrão instantâneo. Ele comia isso todos os dias, ele disse, até que começou a ficar preocupado que seu corpo ficasse amarelo como a cor do macarrão instantâneo.

1976 Dojo de Maruyama Sensei na Filadelfia,
realizando kotegaeshi com Gaku Homma.

Depois de poucos meses de descanso no Japão, Maruyama Sensei retornou para a “fronteira do aikido” e o seu novo lar na Filadélfia. Quatro anos mais tarde foi a minha vez de visitá-lo em minha primeira viagem aos Estados Unidos. Quando eu cheguei à Filadélfia, eu logo descobri que a vida havia sido drasticamente mudada para Maruyama Sensei.

Depois do falecimento do Fundador, Morihei Ueshiba, Koichi Tohei Sensei, Shihan Bucho (Instrutor Chefe) deixou o quartel-general da Aikikai de Tóquio e se tornou independente. Uma vez que Maruyama Sensei era estudante direto de Tohei Sensei, Maruyama Sensei o seguiu sem pensamento ou hesitação. Naquele tempo, seguir lealmente ao seu Sensei era a coisa mais honorável e apropriada a ser feita. Maruyama Sensei não tinha nenhum problema com o Hombu Dojo da Aikikai. No entanto, não havia dúvidas em sua mente que seguir o seu Sensei era a coisa certa a ser feita. Foi Maruyama Sensei quem deu o nome Shin Shin Toistsu, e até hoje ainda é praticado nos Estados Unidos como Ki Aikido. Sob a direção de Koichi Tohei Sensei, Maruyama Sensei começou a pregar esta nova filosofia de aikido de costa a costa.

Na época em que cheguei aos Estados Unidos em 1976, Maruyama Sensei e Toyoda Sensei já falavam em deixar o Ki Aikido. Em respeito a Tohei Sensei, no entanto, as razões para essa ruptura devem permanecer como parte de uma outra história a ser contada em um outro dia. É suficiente dizer que a decisão de romper com Tohei Sensei pesou grandemente em Maruyama Sensei, no entanto, mais uma vez chegou a hora dele dizer adeus.

Indo de encontro ao conselho de seus pares, Maruyama Sensei havia, anteriormente, dito adeus ao Hombu da Aikikai. Agora ele disse adeus a Koichi Tohei Sensei. Dizer que Maruyama Sensei desejava meramente ser independente é muito simples. Com cada uma dessas despedidas ele deixava para trás muitos dojos que ele havia ajudado a criar, mantendo apenas o seu dojo na Filadélfia e alguns poucos clubes universitários de aikido que ele fundou. Mais uma vez ele começava do início, desta vez como fundador de sua própria organização, Kokikai Aikido. Durante os últimos 25 anos a Kokikai, que agora possui a sua matriz em Nagoya, Japão, cresceu mundialmente. Todos os anos Maruyama Sensei viaja para os Estados Unidos para ensinar os dojos afiliados da Kokikai ao redor do país.

Maruyama Sensei está com 65 anos de idade agora. Os seus sonhos e os sonhos de muitos aikidoístas se tornaram realidade nos últimos 40 anos. O aikido, em suas mais diversas formas, se espalhou pelos Estados Unidos, Europa e outros países ao redor do mundo. Os esforços de Maruyama Sensei incluíram muitos anos difíceis e muitas despedidas. As suas realizações tiveram um preço. Nos filmes o único que resta em pé é o herói. O único que parte é aquele que perdeu. Se Maruyama Sensei teve que partir, seria verdadeira a idéia de que ele tivesse perdido? Maruyama Sensei permaneceu fiel a si mesmo, ele tomou decisões difíceis e seguiu o seu próprio caminho. Ele se libertou das pressões da hierarquia. Para tudo isso, ele simplesmente disse, “Basta”. Talvez tenha sido neste ponto que Maruyama Sensei tenha olhado para o céu e visto as nuvens pela primeira vez.

Hoje, Maruyama Sensei se concentra em seus próprios objetivos, sem interrupções políticas ou distrações de outras pessoas. A nuvem que ele guia é o seu próprio Kokikai Aikido. Ele tem suas razões pessoais para se tornar independente, e essas razões ele mantém apenas para si. Durante os últimos 30 anos pouco foi escrito sobre Maruyama Sensei. Manter-se afastado da política de seu passado tem sido o seu misogi. Misogi é parte do caminho do verdadeiro artista marcial. Este espírito abraça o conceito zen de hogejaku, que pode ser traduzido como “jogue tudo fora.”

No treino Zen um unsui, (monge iniciante em seus estudos) é tentado por desejos humanos e tentações que o aprisionam. Em um esforço para esclarecer esta confusão, ele procura o conselho de seu roshi (monge sênior iluminado). O roshi se vira para ele e grita em uma única e esbravejante voz: “Hogejaku!” na vida, todos nós somos aprisionados por desejos e ambições. A fim de verdadeiramente vermos, nós devemos jogar fora essas coisas que nos aprisionam. O Fundador do Aikido Morihei Ueshiba, disse que a prática do aikido é misogi waza, ou a prática de desprender e purificar a nós mesmos. Um barco durante uma longa jornada através do oceano coleciona muitos crustáceos que devem ser jogados fora se a embarcação deseja se manter flutuando. A nossa vida é como o barco. Nós precisamos parar e jogar fora os crustáceos que se agarram a nós durante nossas jornadas pessoais. Desse modo, Maruyama Sensei segue os passos do Fundador.

Como estudantes de aikido nós, às vezes, focamos na técnica de um instrutor, que, de certa forma, é apenas uma “receita”. Para entender profundamente o que um instrutor tem a oferecer, nós devemos saber um pouco a respeito da vida do instrutor. Nós não podemos aprender se simplesmente tentarmos seguir as receitas e ignorar o contexto de onde elas se originam. Isto é muito superficial.

Maruyama Sensei demonstra iriminage na Nippon Kan.
Maruyama Sensei demonstra
defesa contra yokomenuchi.
Grupo praticando durante o seminário de Maruyama Sensei.
Maruyama Sensei demonstra kotegaeshi.

13 de setembro de 2002
Quando fui buscar Maruyama Sensei no aeroporto eu não tinha estado com ele nos últimos 16 anos e, no entanto, à medida que ele nos cumprimentava, suas maneiras e gestos me pareciam familiares. Ele estava viajando com duas malas enormes, cheias de antiguidades que ele havia colecionado em sua viagem aos Estados Unidos. Colecionar antiguidades é uma das grandes paixões de Maruyama Sensei, uma paixão pela qual ele se tornou famoso no Japão.

Ele possui mais de mil tacos de golfe antigos, centenas de espadas japonesas e uma coleção de artefatos de porcelana européia antiga muito vasta para ser contada. Durante a sua estadia em Denver ele adicionou mais algumas antiguidades a sua coleção – tantas que ele estava preocupado de não conseguir levar todas elas para casa.

Eu conheço Maruyama Sensei por mais de 40 anos. Eu o convidei a Denver não para ver quais as técnicas ele tinha para oferecer nem para ver quais as antiguidades que ele estava comprando. Eu o convidei porque, sinceramente, eu queria vê-lo depois de tanto tempo e para tentar entender o que ele havia vivenciado durante as quatro décadas passadas.

Há várias coincidências em nossas vidas. Nós dois temos dedicado nossas vidas ao aikido, e nós somos ambos independentes. Eu não posso explicar nem entender completamente a minha relação com Maruyama Sensei, mas o que eu tenho certeza é que Maruyama Sensei com 65 anos de idade ainda está seguindo o seu próprio caminho. Ele não prega paz e harmonia como alguns, nem tem se curvando às pressões de grandes organizações como outros. Ele confia em seu próprio caminho e não olha para os lados a fim de encontrar a sua própria direção. Eu sinto afinidade e admiração por esse tipo de espírito e refletindo agora, eu compreendo que este espírito já estava com ele em Akita, há muitos anos atrás quando ele se lançou contra a corrente da sociedade japonesa. Este tipo de espírito toca o coração dos estudantes e nós precisamos desse tipo de instrutor na comunidade do aikido de hoje.

Eu estava com um pouco de receio de lhe pedir que fosse entrevistado, mas eu o abordei hesitante. “Sensei o Sr. é uma parte muito importante da história do aikido nos Estados Unidos. Eu acho que já está na hora do Sr. dar uma entrevista”. A sua resposta veio rápida: “filho de uma arma! Eu vivi muito. Eu não quero que algum jornalista julgue a minha vida através de uma única entrevista. Isto não é tão simples quanto se parece”. No entanto, eu continuei: “Mas se você não escreve sobre as suas experiências, outra pessoa irá escrever sobre elas, mais cedo ou mais tarde, de acordo com as suas próprias opiniões e direcionamentos. A sua estória pode nunca vir a ser ouvida”. “A história sempre se dá desta forma, não é mesmo?” foi a sua resposta.

Depois do jantar, na noite anterior à partida de Maruyama Sensei, nós nos retiramos para a Ger (tenda-residência nômade) (ligada ao concerto Taiko beneficente da AHAN realizado em setembro de 2002) para relaxar antes dos preparativos para a viagem do dia seguinte. Eu lhe perguntei novamente a respeito de realizar uma entrevista. Sua resposta foi a de me interromper no meio da sentença com um gesto de sua mão, e começou a cantar uma canção cantada pelos homens japoneses no período Meiji antes de saírem da Mongólia.

2002 A última noite de Maruyama Sensei
na cabana ger da Nippon Kan.

“Longe, cruzando os oceanos, estão os desertos da Mongólia. Um lugar no qual os homens jogam as suas ambições ao vento. Eu tenho no meu coração grandes ambições e sonhos, eu nunca retornarei até que os tenha visto.”

Eu me lembrei desta música porque Maruyama Sensei a havia me ensinado em Akita. Nós dois havíamos cantado aquela canção durante os anos quando os tempos se tornaram difíceis. Depois que ele terminou de cantar, eu parei de perguntá-lo sobre entrevistas. Ao contrário, nós cantamos uma canção juntos novamente e levantamos uma taça de sake em um brinde. Aquela foi a minha resposta, a música, e as linhas de sorriso ao redor de seus olhos. Ele me disse o que eu havia pedido para ouvir sem palavras.

“Eu não tenho nada a dizer. Toda a minha vida é apenas isso, apenas vida. Qual o interesse especial nisso? Não existe nada especial, Não há nada sobre o qual valha à pena escrever.”

Ele chegou aos Estados Unidos trazendo apenas um keiko gi e um bokken. Sem mesmo falar a língua, ele sobreviveu a todas as suas batalhas. Agora ao entardecer, como um artista marcial, ele atingiu o ponto no qual ele pode dizer com entendimento, “Vida é tudo e nada.”

Muito obrigado Maruyama Sensei por ter forjado o caminho que aikidoístas do Japão, do Estados Unidos e de outros países têm a chance de seguir. Esperamos que um dia você possa compartilhar mais de suas estórias conosco. Até lá, adeus Maruyama Sensei. Você é realmente o pioneiro silencioso.

Este artigo foi disponibilizado aqui pela gentil permissão do autor. Por favor, clique aqui para ter acesso à versão original do artigo: The Silent Pioneer: Shuji Maruyama Sensei, Kokikai Founder