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Morihiro Saito Celebra 50 anos de Prática de Aikido

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por Stanley Pranin

Aikido Journal #109 (Fall/Winter 1996)

Traduzido por Portugal Aikishuren Dojo

Antes da cerimónia de homenagem à sua promoção a 9º Dan.
No dia 4 de Maio de 1996, celebrou-se em Iwama, na Prefeitura de Ibaraki, os 50 anos passados no Aikido por Morihiro Saito do Ibaraki Shuren Dojo. Depois das notas de abertura lidas por Yoshimi Hanzawa Shihan, discursaram o Hombu Dojo Cho da Aikikai, Moriteru Ueshiba, e o Presidente da Câmara Municipal de Iwama, que expressaram os seus agradecimentos a Saito Shihan pelas suas contribuições à cidade. Após a entrega de presentes e flores, Saito Shihan falou aos presentes (excertos do qual se encontra mais abaixo) e fez uma doação de fundos para o bem-estar dos idosos de Iwama. Para completar a cerimónia, num discurso de brinde, Hiroshi Isoyama, da Federação Internacional de Aikido, chamou Saito de “um Myamoto Mushashi” moderno.

Foram cerca de 400 as pessoas que se juntaram para celebrar o meio século de prática de Aikido de Saito Shihan, incluindo praticantes antigos como Zenzaburo Akazawa, e alunos de todo o Japão. Numerosos estrangeiros também estiveram presentes, oferecendo um vislumbre do carácter internacional das actividades de Saito Shihan.

“Uma família criada pelos Deuses; uma família criada pelo Aikido.”

(Excertos do discurso de Saito Sensei)

Foi graças ao meu Mestre, o Fundador Morihei Ueshiba e à sua família, que consegui chegar tão longe no Aikido.

Estes 50 anos passados incluíram tempos de grande alegria mas também de grandes dificuldades. Quando me tornei aluno de Ueshiba Sensei em 1946, já havia no dojo alguns uchideshi. Muitos deles tornaram-se professores de renome internacional. Tenho de dizer que me obrigaram a trabalhar duramente, mas também que cuidaram bem de mim.

Nessa altura, a vida de uchideshi consistia em acordar antes do nascer do Sol para rezar, depois treinava-se, comendo duas refeições por dia de papa de arroz com batata-doce ou taro. O resto do tempo era passado a trabalhar na quinta. Muitos dos antigos alunos aqui presentes hoje, sem dúvida que ajudaram O-Sensei nos trabalhos da quinta. Estava sempre a pedir a todos para ajudarem, por isso ser uchideshi era realmente muito duro. Eu próprio, como trabalhava para a Companhia Nacional de Caminhos de Ferro, de dois em dois dias conseguia escapar-me a tudo isto.

O Fundador, mal pensava em fazer alguma coisa, agia de imediato, sem se importar se era ou não conveniente para as outras pessoas ou para as suas famílias. Era capaz de dizer por exemplo, “Venham todos amanhã pois temos que debulhar!” Claro está que quase toda a gente tinha outros assuntos a tratar, mas mesmo assim conseguíamos arranjar algum tempo para essas tarefas. Não obstante, os sempai iam deixando de aparecer ao longo do dia e em breve não restava ninguém. Eu ia sempre ao Dojo quando acabava o meu turno nos Caminhos de Ferro, mas quando lá chegava, não havia ninguém. O Fundador já estava nos campos a trabalhar. Quando o cumprimentava, ele dizia, “Ah, vieste” e então, sozinhos, treinávamos juntos. Desta forma, ele sempre foi muito bom para mim.

No dia do seu casamento, em 1952
Um dia Ueshiba Sensei disse-me “Saito, arranja uma mulher”. Felizmente acabei por casar com Sata. Disse “felizmente”, pois eu não era exactamente um bom partido como marido e, na verdade, não posso também ver porque é que alguém quereria casar com ela. Logo que nos aceitámos, Sensei disse “Podes fazer a tua cerimónia de casamento na minha casa”, o que fizemos. Contudo, logo a seguir ao casamento disse-me “Agora ficas tu encarregue deste sítio”, e partiu de seguida em viagem para a região de Kansai. Bom, como não sabia o que fazer, no dia seguinte parti a correr atrás dele e segui-o por todo Kansai a pedir-lhe para voltar. Por causa disto nunca tivemos uma lua-de-mel.

A 26 de Janeiro de 1968, a esposa do fundador adoeceu de repente e acabou por ficar acamada por mais de um ano. O-Sensei ficava preocupado e às vezes assomava-se próximo da sua cara e perguntava-lhe como estava. Mas quando tentava responder, ela proferia só alguns sons. A minha mulher “interpretava-os” perguntando-lhe, “O que disse foi isto, não foi?” e então ela fazia sinal de concordar. Ninguém, até mesmo o seu marido de 60 anos, conseguia descobrir o que ela estava a dizer; mas a minha mulher conseguia compreendê-la pois conhecia-a muito bem, depois de ter prestado 18 anos de serviço. O-Sensei dizia, “Sata, és extraordinária! Não te acendo uma vela.”

A esposa do Fundador faleceu não muito depois dele, em Junho de 1969 e então fiquei o guardião e curador do Templo de Aiki e do Ibaraki Dojo.

Nessa altura eu também ensinava no Hombu Dojo aos Domingos. Um dia, um Americano disse-me que, mais do que tudo, o que ele queria era ir para Iwama. Como nesta altura não havia ninguém a praticar no Dojo de Ibaraki e eu tinha medo de deixar o local sozinho à noite, achei que era uma perfeita oportunidade. Essa pessoa foi o primeiro uchideshi estrangeiro ali, veio a ser um excelente estudante e acabou por abrir um Dojo em São Francisco. Todos os anos enviava alunos a Iwama e, passado algum tempo, também começaram a vir da Europa.

Isto passou-se há uns 25 anos, quando as pessoas começaram a falar sobre a paz mundial e amizade internacional. Ocorreu-me então que esta era a mesma situação, embora numa escala menor, que se estava a formar à minha volta. Eram pessoas, com cabelos de cor diferente, de diferentes religiões e diferentes em muitos outros aspectos, que viviam juntas sem problemas desfrutando a sua vida, atraídas mutuamente pelo Aikido. Era como O-Sensei ensinava: “O universo é lindo e nós somo uma só família criada por Deus.”

Lembro-me que quando comecei a praticar Aikido, o meu único objectivo era o de ser forte a lutar. Eventualmente, cheguei à conclusão do absurdo disto e perguntei-me com seria possível alcançar o objectivo muito mais amplo de criar uma “família mundial”. Decidi que era através da expansão do círculo de harmonia e da unidade (wa).

Então as pessoas começaram a pedir-me para ensinar no estrangeiro. Agora já viajei para o estrangeiro mais de 50 vezes e pessoas de mais de 30 países já vieram a Iwama. Onde quer que vá sinto como se fosse a minha família em Iwama e por todo o mundo as pessoas são as mesmas. Graças ao Fundador e graças ao Aikido, o mundo transforma-se numa família e a vida é cada vez mais agradável.

Sata Saito
Enquanto conseguir, continuarei comprometido a seguir os ensinamentos do Fundador, a lutar pela paz mundial, pela amizade internacional e continuarei a trabalhar para o desenvolvimento social regional.

Servindo a Esposa do Fundador por 18 anos

(Sata Saito, mulher de Morihiro, fala-nos das suas experiências)

Casamento na casa de O-Sensei

Sim, foram tempos difíceis se pensarmos neles dessa forma, mas eu só fiz o que sentia ser o meu dever como mulher de Morihiro Saito. Servi o meu marido, como senti que devia fazer, e também servi o seu professor e a esposa do seu professor. Nunca pensei em mim antes de pensar em O-Sensei nem antes do meu marido. O-Sensei uma vez disse-me, “Saito é meu aluno (deshi), mas tu não”. Mesmo assim, resolvi fazer o meu melhor por ambos.

Casamo-nos em Janeiro de 1952. Aparentemente O-Sensei disse ao meu marido para encontrar uma noiva. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu “Vou com a minha mulher para a minha cidade natal de Tanabe onde já não vou há mais de 40 anos. Preciso de alguém para cuidar das coisas aqui em Iwama. Mas este lugar é tão grande que essa pessoa tem de se estabelecer aqui com a sua família.”

Os pais do meu marido não foram convencidos tão facilmente e não aprovavam. Tudo correria bem se ele conseguisse aguentar com todo o trabalho. Mas se ele não conseguisse, teríamos um caso sério a resolver. Contudo O-Sensei estava muito impaciente e disse, “Saito, se andares por aí a hesitar, eu próprio encontrarei alguém para ti. Encontrarei alguém de quem eu goste!”

Naqueles dias, havia o costume das raparigas terem de se encontrar com os futuros maridos sem sequer se terem conhecido antes. Tinhas de te encontrar com quem eles te dissessem. Se achasses que a pessoa em questão era aceitável, bebias o chá que te era servido na sua casa; se achavas que ele não te convinha, podias dizê-lo deixando o chá no copo.

Nessa altura, casar com alguém fora da Prefeitura ainda era muito difícil. Também tínhamos de obedecer aos desejos dos nossos pais e por isso era difícil casar com alguém que não era do seu agrado. A família de O-Sensei era de uma classe mais alta do que eu estava habituada e também ele falava no dialecto de Kansai que eu nunca tinha ouvido antes. Por isso, de diferentes formas, tive muitas dificuldades.

Era costume as noivas arranjarem o cabelo com um penteado alto, no estilo Shimada e por isso, ao aproximarem-se da idade de casar, as mulheres paravam de cortar o cabelo. Nunca tive tempo de deixar crescer o meu cabelo porque tudo aconteceu muito rapidamente. Então tive de utilizar extensões de cabelo para compensar a diferença.

Antigamente, o noivo vinha a casa da noiva e levava-a para sua casa, onde se realizaria o casamento. Como o nosso casamento foi realizado em frente ao altar Shinto da casa de O-Sensei (shinzen) a partir desse dia entrei directamente para a família Ueshiba. Koichi Tohei, Kisshomaru Ueshiba e outros membros proeminentes do Aikikai assistiram à cerimónia.

“Saito, quero que vivas aqui!”

Morihiro Saito, em 1955
Nós casamo-nos pouco tempo depois do fim da guerra e por isso o racionamento da comida ainda estava vigente. Como O-Sensei tinha a sua própria terra, a sua família não recebia rações; tínhamos de cultivar o suficiente para nos alimentarmos a todos. Se não cultivássemos, não teríamos o que comer. O-Sensei ainda era jovem nessa altura e por isso ele próprio trabalhava muito, mas também punha os seus alunos a ajudá-lo. Claro está que, como a maioria das pessoas daqui também vinham de famílias de agricultores, também tinham os seus próprios campos e a sua própria comida com que se preocupar. A maioria não tinha possibilidades de estar constantemente ao lado de O-Sensei. Contudo, ao chegar a altura das colheitas O-Sensei não esperava que eles acabassem as suas próprias colheitas e tornava-se muito insistente a pedir para irem ajudá-lo. Por essa razão era sempre muito difícil continuar a praticar Aikido, e muitas pessoas deixavam de aparecer.

O meu marido, contudo, era o último dos irmãos e tinha um emprego nos Caminhos de Ferro. Também não tinha nem família nem responsabilidades com a sua própria quinta, por isso penso que O-Sensei achou que ele era absolutamente ideal e então dependia completamente dele.

Mais ou menos quatro meses antes do casamento, O-Sensei disse, “Saito, quero que tu e a tua mulher vivam aqui”, e começou ele próprio a cortar as árvores da sua terra, em preparação para a nossa chegada! Mesmo sabendo que ainda não tínhamos a licença dos nossos pais para o casamento, ele começou logo a limpar a área para nós! A área escolhida estava coberta principalmente de kunugi (um tipo de carvalho - Quercus acutíssima) e não havia ninguém para o ajudar nos trabalhos por terem os seus próprios campos para cuidarem (não acabámos de limpar a área antes de nos estabelecermos e nem mesmo completámos o trabalho no tempo de O-Sensei). A construção da casa terminou a 28 de Setembro, se bem me lembro. Depois disto tudo, os nossos pais tiveram que resignar-se ao casamento. Também o meu marido nunca se poderia opor aos desejos do seu professor, especialmente depois dele ter tido tanto trabalho. Naqueles dias um aluno nunca poderia desobedecer, de qualquer maneira, ao seu professor. Foi assim que ficámos a viver aqui. A casa no início nem sequer tinha telhas, tinha só um telhado de colmo com uma base de cortiça de cedro. Mais tarde O-Sensei deu-nos o terreno, parcialmente em gratidão pelo meu marido o ter ajudado a resolver algumas dificuldades relacionadas com as propriedades vizinhas.

“Sata, acalma-o!”

Uma vez que O-Sensei tinha algumas posses e fortuna, houve certas pessoas que lhe fizeram comentários sobre a nossa dedicação para com ele e para com a sua mulher. Mas O-Sensei contou-me, “Sata, disse a todos os deshi para respeitarem o Saito. Disse-lhes que ele era tão respeitável que eles até beneficiavam só em beber o chá feito do pó debaixo das suas unhas”. Mas também houve alturas em que lhe enchiam a cabeça com mentiras como “Saito tomou toda esta responsabilidades porque tem um olho no seu dinheiro.” E ainda que O-Sensei anteriormente lhe tivesse acumulado tantos elogios, acreditava nessa pessoa e dizia, “Ah, acho que estás certo. Esse Saito é mesmo ignominioso, não é?”

Bom, quando o meu marido ouviu um destes comentários, dirigiu-se a O-Sensei e disse, “Pode chamar-me idiota e parvo e mesmo assim segui-lo-ei onde quer que vá, porque sou seu aluno devoto. Mas se pensa que sou uma pessoa maléfica desse tipo, bom, então não poderei ficar aqui nem mais uma noite. Parto imediatamente!”. O-Sensei e a sua mulher imploraram-lhe dizendo, “Saito, espera, não te vás!”.

Empurrando o Fundador numa demonstração em 1957
Eles conheciam o seu mau génio e disseram-me, “Sata, faz alguma coisa para o acalmar!” Respondi, “ Desculpe, mas uma vez que ele tenha tomado uma decisão, não posso fazer muito para o convencer a mudar.” Mas insistiram, “Não te desculpes, faz alguma coisa, por favor, faz com que ele fique!”.

O meu marido era um trabalhador dos Caminhos de Ferro e por isso podia viajar de comboio de graça, o que lhe era muito conveniente para quando tinha de acompanhar O-Sensei nas suas numerosas viagens. Onde quer que fosse dizia sempre ao meu marido para o acompanhar. Um dia o meu marido disse-lhe, “Peço-lhe desculpas, Sensei, mas não posso tirar tantos dias de folga.” Ao ouvir isto, O-Sensei pediu a Kunya Fujita (um homem de negócios que estava muito envolvido com a incorporação do Kobukai) para telefonar ao presidente dos Caminhos de Ferro. Uns dias depois, o chefe da estação onde o meu marido trabalhava recebeu um telefonema do secretário do presidente. Disse “Tem aí um homem chamado Saito. Dê-lhe uma semana de folga!”

Mesmo quando o meu marido regressava do turno da noite, nunca o vi a dormir a sesta no dia seguinte. Em vez disso, estava sempre a ajudar O-Sensei ou a treinar.

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