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Menos palavras - Mais entendimento

por David Lynch

Aikido Journal #111 (1997)

Traduzido por André Fettermann de Andrade

“Não, não, não é essa a técnica!”

“Vocês dois sentem-se e deixem a próxima dupla se levantar!”

“Não, aí não, ajoelhe-se ali!”

“OK, agora você faz a técnica!”

Essa foi a cena que persenciei em um exame de aikidô. Isso até pareceria bastante normal exceto por uma coisa - os comandos eram todos em japonês apesar de não ter nenhum japonês presente, o instrutor não fosse japonês ele próprio, e o dojo estivesse a milhares de quilometros do Japão.

Me pareceu estranho que a língua japonesa tenha sido usada durante todo o exame, não apenas para os nomes das técnicas, mas também para os comandos e repreensões como os mostrados acima.O que não foi tão estranho foi que muitos dos alunos sendo examinados obviamente não entendiam nada do que estava sendo pedido a eles.

O instrutor falava um bom japonês, mas fico me perguntando porque ele se sentia obrigado em usar unicamente aquele idioma em tal cincurstância. Me pareceu um caso do tipo “quando em Roma, faça como os japoneses fazem”.

Naturalmente não é da minha conta como alguém dirige seu dojo ou quanto japonês eles decidam usar nesse processo, mas eu acho que esse exemplo demonstra um tipo de imperialismo linguístico com o qual o aikidô ficaria melhor sem. O espetáculo de ocidentais tentando, conscientemente ou não, serem japoneses, e, claro, destinados a fracassar, é tudo menos harmonioso.

A exposição à língua e cultura japonesa, através do aikidô, pode ser tanto educacional quanto divertida e é um dos muitos benefícios indiretos de se aprender a arte, mas alguns indivíduos parecem perder mais do que ganham com essa experiência inter-cultural. Nesses casos, a primeira vítima costuma ser o seu senso de humor e a habilidade de rir de si mesmos.Quando alunos tem uma cara séria e pontuam seu treinamento com sons estranhos e guturais, e como instrutores tendem a ser intensamente precoupados com a graduação e arrogantes. Eles “latem” ordens, mais frequentemente não em japonês, e exigem serem tratados com respeito especial. Mas porquê?

Talvez tenham medo de que se fizerem alguma mudança - desde as técnicas aprendidas mecânicamente, até as palavras em japonês que seus intrutores usaram para ensiná-las - seu aikidô possa perder a autenticidade. Ou pode ser que eles apenas estejam tentando impressionar ou mistificar seus alunos. Qualquer que seja o caso, o resultado é artificial para dizer o melhor, e faz o espectador médio imaginar quando ele “vai sair dessa”.

Quanto a usar o japonês intensamente em dojos fora do Japão, em que ponto espera-se que esse curioso hábito acabe? Seriam os desafortunados alunos desse intrutor permitidos a retornar a sua língua original na porta do dojo após a aula, ou em algum ponto do caminho de volta para casa? A maioria dos japoneses, ainda bem, são capazes de rir de si mesmos e tenho certeza que algumas dessas atitudes rígidas desses instrutores ocidentais iriam parecer engraçadas para eles também.

Mas muitos japoneses também são capazes de demonstrar um intenso nacionalismo que já é tedioso em si próprio sem que tenhamos que aturar isso amplificado por ocidentais super-zelosos.

Uma vez ouvi um instrutor senior japonês dizer que as palavras onegaishimasu e arigato gozaimashita eram usadas respectivamente no início e no fim de uma aula de aikidô em todos os dojos do mundo. Ele disse que esses termos deveriam ser ditos em japonês pelo seu “profundo significado espiritual” que não conseguiria ser transmitido em nenhum outro idioma.

Eu poderia ter dito a ele que pelo menos em um dojo (o meu) nenhum desses termos eram usados, mas o fato é que essas duas expressões continuam significando simplesmente “por favor” (no sentido de “por favor treine comigo”) e “obrigado”. Elas não são mais espirituais que seus correspondentes em inglês (nota do tradutor: o texto original é em inglês). De fato, no meu dojo nós decidimos começar as aulas com uma reverência silenciosa e terminar com um “thank you” em inglês, e até agora não fomos atingidos por um raio, ou um ki super carregado, por não usar as “intraduzíveis” expressões japonesas mencionadas acima.

Não estou dizendo que devemos anglicizar toda a terminologia do aikidô, embora tal movimento possa ser em ultima análise de interesse da arte, mas me parece de senso comum usar a língua local o máximo que pudermos, no interesse de obter uma melhor comunicação. Se algo pode ser facilmente expresso em inglês, por exemplo, por que então falar em japonês?

Qual o sentido de emitir instruções detalhadas em japonês para alunos não japoneses?

Tem sido discutido que ter uma terminologia comum em aikidô (i.e, japonês) é de grande conveniência quando o aikidoca viaja para fora de sua zona de idioma. Um australiano, digamos, chegando em um dojo na Alemanha, conseguiria pelo menos entender o nome das técnicas, assim ele não ficaria completamente perdido. No entanto não penso muito nesse argumento uma vez que alemães falam mais inglês do que japonês, e de qualquer forma você não precisa saber o nome das técnicas para praticá-las uma vez que normalmente toda a turma está fazendo a mesma técnica e basta você dar uma olhada em volta para saber o que está acontecendo.

O exagerado significado que muitos japoneses dão ao seu idoma é assunto de um livro chamado Japan’s Modern Myth - the Language and Beyond de Roy Andrew Miller. O tema do autor é que os japoneses criaram um poderoso mito ao redor de seu idioma de forma a reforçar um sentimento de identidade nacional que foi prejudicada por diversos eventos históricos.

Miller desbanca inteiramente, às vezes estridentemente, o conceito da pureza da língua japonesa e mostra muitos exemplos em que a língua é usada para aumentar reivindicações de superioridade.

Aikidocas também podem se interessar nos comentários de Miller sobre os kotodama (ou kototama para usar a pronúncia de O’Sensei), o chamado “espírito da línguagem”. Miller chama esse conceito de “uma tentativa totalmente espúria de fazer a língua japonesa parecer essencialmente diferente de todas as outras variedades de linguagem humana.”. (Note, contudo, que esse comentário não é voltado diretamente aos rituais religiosos que envolvem o kototama, como praticado em algumas escolas de aikidô).

Ao visitar a filial de Auckland de uma das religiões japonesas modernas, fiquei surpreso de encontrar pastores entoando os cânticos em japonês , embora - de novo - não houvesse nenhum japonês no grupo e o pastor chefe fosse na verdade um indiano imigrante de Fiji. Ele estava conduzindo uma sessão de cura a qual envolvia a leitura de invocações, em um japonês questionável, de um script romanizado. Quando sugeri que a tradução das preces poderiam permitir aqueles que as tivessem recebendo saber mais precisamente que bençãos estavam sendo desejadas a eles, me disseram: “Essas preces só terão efeito se forem lidas em japonês, porque o japonês é a língua mais pura do mundo”.

Deveríamos avaliar melhor uma religião que aparentemente fecha suas portas para aqueles que não sejam capazes de falar um certo idioma. Por outro lado, é bem capaz que haja algum merito puramente sonoro e murmurar certos sons ao invés de outros, mas nesse caso deve-se esperar uma explicação menos preconceituosa da lingua escolhida.

Eu não defendo a desculturação do aikidô, como se fosse para trocar o hakama e o dogi por calças jeans e camisetas, e reconheço a dificuldade de discutir ou mesmo escrever sobre a arte sem usar diversos termos em japonês. Mas com certeza devemos estar buscando uma melhor comunicação, não o uso pedante do japonês a qualquer custo. E parece inadequado que a língua esteja sendo usada ainda como uma outra ferramenta para algumas pessoas exercerem um poder sobre outras.

O Aikido, especialmente sua filosofia humanística universal, deve ser certamente forte o bastante para aguentar sua tradução em diversas línguas, e parece ser muito obtuso imaginar o contrário. O Caminho é tanto japonês quanto internacional e não pode ser confinado a fronteiras nacionais.

Eu não sou, apesar dos comentários acima, contra o uso da língua japonesa em dojos fora do Japão; é apenas que acho que isso deveria ser temperado com bom senso.

Quanto japonês devemos usar no aikido é sempre um problema toda vez que publicamos o Aikido Journal e estamos tentando desenvolver uma lista com os termos que não necessitam de tradução e outros que devam ser retirados, quais devem ser traduzidos e quais explicados em detalhes em um glossário. Imagine ter que traduzir a palavra ki toda vez que fosse usada! Um pensamento desagradável, mas ao mesmo tempo temos que lembrar que muitos de nossos leitores tem pouco ou nenhum conhecimento de japonês e nós devemos isso a eles de forma a tornar a coisa mais clara possível.

Gostaria também de pagar um tributo aqui ao nosso incansável tradutor, Derek Steel que tem a mais difícil tarefa de traduzir o volume de nossos artigos da edição japonesa da revista. Muito do material é tão esotérico que até os japoneses tem dificuldade de entender, de forma que tentar converter essas idéias para o inglês é extremamente difícil. Derek está consciente disso e sempre está disposto a buscar alternativas para cobrir cada possibilidade de significado. É meu trabalho editar o material e isso envolve decisões difíceis, e encontrar um equilíbrio entre uma tradução precisa e o que nossos leitores poderão compreender. (Se alguma coisa parecer estar perdida na tradução é mais provável que tenha sido cortada no meu processo de edição).

Em princípio, o objetivo do Aikido Journal é o de usar o mínimo possível de palavras e expressões em japonês - e eu acredito que isso deva ser a política de dojos fora do Japão também - e introduzir palavras japonesas importantes em doses palatáveis.

Quando sentirmos que seja necessário usa cada vez menos termos japoneses conhecidos, por razões de importância técnica ou cultural, usamo a regra de “somente a primeira vez”, aonde a primeira aparição do termo japonês no artigo fica em itálico seguido de sua tradução entre parênteses, enquanto que os usos subsequentes no mesmo texto não é mais apresentado em itálico ou traduzido. Onde achamos que isso seja necessário, os termos técnicos japoneses são mais explicados em um glossário.

Também optamos pela forma ocidental de apresentar os nomes japoneses, desde que essa ainda é a regra em inglês, ou seja usamos “Morihei Ueshiba” ao invés de “Ueshiba Morihei”, mesmo que essa última seja a ordem correta no Japão.

Título usados pelos artistas marciais também representam um problema, uma vez que quase todos não possuem um equivalente em inglês. Se fôssemos listar todos os diferentes títulos usados por Morihei Ueshiba, em épocas diferentes e por pessoas diferentes, por exemplo, isso provavelmente iria tomar diversos parágrafos. No interesse de sermos mais claros nós iremos optar às vezes usar somente o nome da pessoa, sem todos os seus títulos, mas isso não representa um desrespeito.

O Aikido Journal no final das contas é uma publicação em língua inglêsa e não há muito propósito em enchê-la de palavras japonesas que apenas alguns de nossos leitores seriam capazes de entender.

Um shihonage funcionaria tão bem, ou tão mal, com qualquer outro nome.