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Alguém vai fazer alguma coisa?

por Russell Pearse

Published Online

Traduzido por Jaqueline Sa’ Freire (Hikari Dojo – R.J.)

Recentemente, passei por um incidente que definiu para mim a razão pela qual eu estudo aikido. O incidente ocorreu em nossa piscina local, aonde meu filho tem aulas de natação. Era uma manhã de domingo comum, movimentada, com dúzias de crianças aprendendo a nadar e hordas de pais ao lado da piscina. Uma mulher caminhava em meio às pessoas, tocando todos na cabeça e dizendo “Deus é amor”.

Ela continuou em volta da piscina, colocando as mãos nas cabeças das pessoas, o que não é uma atitude muito ameaçadora, mas que é um tanto desagradável. Ela se aproximou da área em que muitas crianças estavam esperando que as aulas começassem, e começou a tocar nas cabeças das crianças. Um funcionário da piscina se aproximou dela e pediu que parasse. Ela se recusou. Ele segurou seu braço e lhe pediu novamente que parasse. Ela rapidamente se virou, o segurou e tentou jogá-lo na piscina. Ele conseguiu se livrar, e ela se jogou na piscina, totalmente vestida. Ela continuou a tocar as crianças nas raias, enquanto elas tentavam se desviar dela.

Ela se moveu de raia em raia, até que se aproximou da raia em que minha filha estava nadando, e eu me aproximei pronto para intervir. Eu senti um forte instinto de proteção conforme ela se aproximava da minha filha. A maioria dos pais agora observava atentamente e as crianças tentavam se afastar. Vários funcionários estavam pedindo a ela que saísse da piscina e deixasse as crianças em paz. Um dos membros da equipe, um jovem, entrou na piscina e a segurou pelo braço, tentando fazê-la sair da água. Ela era uma mulher grande e forte e facilmente o dominou.

A essa altura, as pessoas estavam se sentindo incomodadas e alguns membros da equipe estavam ao lado da piscina pedindo que ela saísse. Ela jogou água neles, dizendo “Deus é amor.” O empregado, que estava dentro da piscina novamente, tentou segurá-la, mas, subitamente, ela se virou para ele agressivamente e gritou “não.” Naquele momento, a situação passou de estranha e incomoda para potencialmente perigosa, especialmente com tantas crianças à volta. A mulher passou de plácida a agressiva em um piscar de olhos.

Eu percebi que não havia ninguém lá que pudesse dominar a situação, a maioria das pessoas apenas observando, e a equipe da piscina incapaz de assumir a autoridade. Eu decidi que algo tinha que ser feito, e me aproximei esperando pela oportunidade. A chefe da equipe da piscina estava dizendo à mulher, ”por favor, saia da piscina a polícia está chegando.” A mulher se aproximou, segurou o braço da funcionária e tentou arrastá-la para dentro da piscina. Eu me aproximei e segurei seu pulso. Outro pai também se aproximou e a segurou pelo braço. Juntos, nós a tiramos de dentro da piscina. Enquanto ela lutava na borda da piscina, eu rapidamente ajustei minha pegada e a segurei em uma chave de pulso sankyo. Naquele momento eu sabia que a situação tinha mudado de maneira sutil. As circunstâncias tinham se modificado de “desconhecidas” para algo com o que eu podia lidar de maneira concreta. Eu tinha aplicado uma chave de pulso sankyo e podia influenciar os eventos.

Alguns funcionários e parentes a seguraram e tentaram carregá-la para fora da área da piscina, mas eu lhes disse - “não, deixem que ela fique de pé.” Quando ela se levantou, eu apertei a chave sankyo e disse a ela - “por favor, venha comigo,” e a levei para fora, longe da piscina e das crianças. Eu a dirigi para um muro baixo do jardim, e lhe disse - “por favor, sente-se,” e a encorajei a se sentar exercendo pressão em seu pulso e braço.

Ela percebeu que não podia se mover e tentou lutar e arranhar minhas mãos com sua mão livre, e em todo o tempo murmurava e gemia de maneira incoerente. Ela tentou atingir meu rosto com a mão livre, mas não conseguiu. Ela parecia mudar rapidamente entre vários estados de espírito, de agressão à passividade, raiva e submissão, intensidade e irracionalidade. Ela murmurava constantemente “Deus é amor… O senhor é meu pastor… Você será perdoado por seus pecados, Salve as crianças…” Seus olhos estavam arregalados e ela parecia pouco consciente do que estava acontecendo, exceto pelo fato de que eu a estava impedindo de se mover. Muitas vezes ela tentou se levantar e usar seu peso e força contra mim, mas com um leve aumento da pressão em seu pulso e um “por favor, sente-se” ela estava incapaz de se libertar.

Eu a mantive presa na chave por talvez 15 minutos até que a polícia chegou. Eu a soltei, e ela imediatamente se levantou e tentou fugir. Os três policiais, com dificuldade, conseguiram fazer com que ela se sentasse novamente no muro baixo e lhe colocaram algemas. Mais tarde eu descobri que ela era mãe de uma das crianças. No dia anterior ela tinha trabalhado na cantina na escola do filho. Mas algo lhe aconteceu – e ela passou da racionalidade à irracionalidade. Foi uma experiência perturbadora e eu ainda me lembro de ter olhado em seus olhos azuis arregalados e de ter visto que ela “não estava lá”. Ela não tinha compreensão ou consciência de si ou de onde estava, naqueles olhos só havia imprevisibilidade.

Desde então eu pensei muitas vezes em nosso frágil controle da realidade e se eu fiz a coisa certa. Esperamos que as pessoas ajam e reajam de maneira previsível, e encontrar o imprevisível me forçou a questionar minhas próprias ações. Percebi que a maioria das pessoas não está equipada para lidar com tais situações e apenas observam e esperam que alguém faça alguma coisa e que tudo fique bem. Percebi que o aikido me deu ferramentas com as quais posso influenciar a situação. Claro que esse foi um pequeno incidente e que não houve violência, apesar de ter sido uma situação perturbadora, com uma ameaça ou potencial para violência. Mas o aikido me capacitou para controlar a mulher e neutralizar a possibilidade da situação piorar de maneiras inesperadas. Eu não bati nela nem a feri de nenhum modo. Eu calmamente e pacificamente a imobilizei, sem que ninguém se ferisse, com apenas, talvez, algum desconforto momentâneo para ela.

Também percebi que com o treino vem a responsabilidade. Frequentemente, as pessoas se afastam e esperam que alguém aja. Não estou dizendo que devemos nos adiantar e nos tornar alvo de uma potencial violência, mas que, às vezes, alguém tem que dominar uma situação antes que as coisas fujam do controle. Isso me deu maior respeito pela polícia e por outros profissionais cujo trabalho é sair da multidão e entrar em ação, apesar do perigo e da possibilidade de risco pessoal. A polícia é treinada para lidar com tais situações, mas na ausência da polícia, de quem é a responsabilidade? O aikido nos dá uma capacidade maior para lidar com tais situações, e se for assim, com a maior capacidade também temos maior responsabilidade para agir?

Muitas vezes ouvimos falar de circunstâncias em que as pessoas deixaram de agir. Eu me lembro da história de uma mulher em uma rua de New York que foi atacada e estuprada por uma gangue de jovens. Apesar de seus gritos e pedidos de socorro, ninguém foi ajudá-la nem mesmo chamou a polícia. Parece que pelo menos uma dúzia de moradores dos apartamentos nas redondezas ouviu seus gritos, mas todos acharam que outra pessoa faria alguma coisa ou chamaria a polícia.

Me parece que uma grande parte do treinamento do aikido é sobre atenção e responsabilidade. De simples atos no dojo, como a atenção de é preciso que algo seja limpo e a responsabilidade de fazê-lo nós mesmos, à atenção ao fato de que outros alunos estão treinando perto de nós e ter a responsabilidade de não jogar nosso parceiro em uma posição perigosa. Atenção quanto às habilidades de nossos parceiros e suas fraquezas, e a responsabilidade pelo seu bem estar e por não feri-los. Atenção para situações potencialmente perigosas e a responsabilidade de evitá-las ou neutralizá-las.

O Aikido me capacitou para responder na medida em que a situação requer. Em uma situação relativamente leve, eu fui capaz de responder da mesma forma. Em uma situação mais perigosa, o aikido oferece meios para responder de maneira mais forte. Isso me lembra de uma situação que envolveu um conhecido que é mais velho e é um experiente lutador de karate. Parece que ele enfureceu tres mulheres na estrada, enquanto dirigia. Quando ele parou seu carro, as mulheres também pararam e o atacaram. Ele sabia que não podia contra-atacar porque um soco ou um chute de karate poderia causar sérios ferimentos ou pior. Ele também sabia que era legalmente classificado como “arma letal” e que o uso de seus conhecimentos de karate poderia lhe causar problemas legais. Consequentemente, ele só tentou se defender, e terminou no hospital.

Como o Sensei sempre diz, aikido é uma questão de opções. É sair da linha de ataque e se colocar em posição de ter várias opções para lidar com a situação. A opção de um soco ou atemi, de jogar o outro ou imobilizá-lo, ou a opção de simplesmente ir embora. Nós estamos treinando para lidar com a violência e a agressão, e para agir de maneira proporcional à ameaça. Uma situação como a da piscina pode ser tratada com uma gentil chave de pulso sankyo, uma ameaça maior pode ser tratada de maneira mais forte.

Para mim, essa é uma das grandes belezas do aikido como arte marcial. Muito já foi dito sobre o aikido ser uma arte de paz e harmonia. Eu ganhei uma pequena compreensão do conceito quando entendi que o Aikido é uma resposta proporcional para cada situação. Apenas usamos a força que a situação requer e é equivalente à agressão. Nós nos unimos à situação e a força do atacante se volta contra ele.

Em cada situação existem muitas opções e possibilidades. Se alguém tem que fazer alguma coisa, porque não nós?