O Legado De Armas De O’Sensei
por Stanley Pranin
Aiki News #78 (September 1988)
Traduzido por Pedro Escudeiro
Esta edição do Aiki News contém um anúncio importante de Morihiro Saito Sensei que diz respeito à inauguração de um sistema de avaliação destinado a certificar instrutores no aiki ken (sabre) e jo (pau). O impacto deste sistema inovador nos procedimentos de avaliação de muitos dojo por todo o mundo é provável que seja grande, e eu gostaria aqui de fornecer uma retrospectiva informativa para se perceber as razões de tal decisão numa perspectiva histórica.
Como é sobejamente conhecido para muitos praticantes de Aikido, Saito Sensei publicou uma série de 5 volumes, sobre a arte, entre os anos 1973-1976. Apesar de muitos livros técnicos terem sido escritos antes, os seus eram, de longe, os mais compreensíveis em termos de alcance e incluíam, pela primeira vez, uma apresentação sistemática das armas mais usadas no Aikido - o ken e o jo.
As razões para que mais nenhum professor altamente graduado tenha tentado abordar este assunto, das armas do aiki, era pouco explícito na altura. Ainda hoje persiste uma enorme confusão sobre a ênfase que o Fundador, Morihei Ueshiba, realmente dava às armas, e quando e a quem as ensinava. De facto, muitos instrutores e alunos avançados, por todo o mundo, praticam Iaido (arte de desembainhar o sabre vivo) pensando haver alguma relação histórica entre o Aikido e Iaido, ou que o uso do sabre nas duas artes é similar ou complementar. Nalguns dojo, a mestria no uso da lâmina verdadeira é requerido em exames para graduações de dan.
Vamos voltar o relógio um pouco atrás por um momento e concentrarmo-nos nas circunstâncias e no que rodeava O´Sensei durante a Guerra. Tendo ensinado em Tóquio desde 1925, o Fundador decidiu retirar-se para Iwama em 1942 para a Prefeitura de Ibaragi, onde tinha uma propriedade. Isto aconteceu em plena 2º Guerra Mundial, deixando para trás um programa de treino rigoroso, consistindo de classes em várias escolas militares em, e à volta de Tóquio, para a paz e sossego do campo, na Prefeitura de Ibaragi. Pela primeira vez, em muitos anos, tinha tempo para si e, mesmo perto dos seus 60 anos, mergulhou num intenso treino físico e espiritual. Nesta altura, uma das áreas da sua arte, que evoluía rapidamente, a que deu maior ênfase foi à prática do aiki ken e aiki jo.
Os leitores recordar-se-ão que, previamente, por volta de 1930, professores da escola tradicional Kashima Shinto-Ryu visitavam, regularmente, o antigo Kobukan Dojo. Onde o actual Doshu, Kisshomaru Ueshiba, e vários outros alunos, aprendiam práticas básicas de sabre. O Fundador, embora não participando directamente do treino, observava intensamente. Isto aconteceu por 1/2 anos - não se sabe ao certo - e a marca desta escola nas técnicas de sabre de Ueshiba, mais tarde, é claramente demonstrável. Previamente, o sabre de Shinkage Ryu também pode ter tido alguma influência na sua técnica, uma vez que recebeu, de Sokaku Takeda, um certificado desta arte em Ayabe, em 1922.
Quando a Guerra finalmente acabou, a prática das artes marciais foi proibida pelo Quartel General do Exército Americano. No entanto, o treino de O´Sensei praticamente não era afectado, devido ao isolamento geográfico de Iwama. Neste período, um pouco após a Guerra, apenas alguns alunos treinavam ao lado do Fundador, mas incluíam figuras notáveis como Kisshomaru Ueshiba, Koichi Tohei, Tadashi Abe, Morihiro Saito e, por um breve espaço de tempo, Gozo Shioda. O´Sensei ensinava exercícios de ken e jo durante as práticas matinais, principalmente para os alunos residentes, enquanto aqueles que frequentavam as classes nocturnas recebiam instrução em técnicas sem armas (taijutsu). Kisshomaru e Tohei permaneceram em Iwama por algum tempo e participaram num treino rigoroso, ambos recebendo alguma instrução no uso do aiki ken e aiki jo. Contudo, o primeiro voltou para Tóquio nos finais dos anos 40, onde estava empregado na Osaka Shoken Company, enquanto o segundo teve o seu treino interrompido por uma tentativa, sem sucesso, de estabelecer um negócio e pela sua viagem ao Hawai em 1953.
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