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Entrevista com Kanshu Sunadomari (1)

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por Stanley Pranin

Aiki News #64 (November 1984)

Traduzido por Christiaan Oyens

Esta é a primeira metade de uma entrevista dividida em duas partes com Kanshu Sunadomari Sensei da Cidade de Kumamoto, Kyushu. Ela aconteceu no dia 15 de Agosto, 1983 no escritório do Manseikan Dojo.


Todos os seus alunos parecem se interessar pelo lado spiritual de O-Sensei. Em Tókio não encontrei o mesmo interesse, portanto fiquei bastante impressionado.

Isto acontece porque aqueles que ensinam não explicam o espírito de O-Sensei. É uma questão dos professores terem um objetivo ao ensinarem o Aikido. No Manseikan eu ensino técnicas que focam no espírito do fundador, Morihei Ueshiba. Eu sempre falo sobre isso e expresso e enfatizo o lado espiritual de O-Sensei no Jornal Mansei, uma publicação mensal. Sem isto, o Aikido não tem nenhum outro valor além de ser uma arte marcial à moda antiga. O espírito durante os treinos deve emergir através das próprias técnicas e não na forma de palavras idealistas.

Soube que o senhor começou a treinar o Aikido por volta de 1942?

Exato. Eu me matriculei como uchideshi por volta de 1942, durante a Guerra e antes do nome “Aikido” ser cunhado. Meu pai se tornou membro da religião Omoto e foi a partir desta conexão que o meu irmão escreveu uma biografia sobre Morihei Ueshiba Sensei (“Aikido Kaiso Ueshiba Morihei”, por Kanemoto Sunadomari, Kodansha Publishing Co., 1969). Fui levado ao dojo pelo meu irmão. Ueshiba Sensei estava sentado de bigode igual àqueles samurais retratados nos livros de contos. Ele era como um antigo guerreiro. Não imaginava que alguém assim pudesse existir. (Risos) Imediatamente me matriculei como uchi deshi, iniciando meus treinos no dia seguinte. Nunca imaginei que treinaria Aikido, mas algo nele atraiu o meu lado espiritual. Na minha infância, tinha aprendido algumas coisas com o meu irmão mais velho, mas nunca tinha assistido as técnicas. Porém, assim que conheci Ueshiba Sensei, me matriculei. De qualquer maneira entrei na academia sem hesitações.

Como era 1942, época de guerra, imagino que havia poucos uchideshi.

Sim. Por volta de 1942 todos haviam ingressado nas forças armadas. Era o tipo de situação em que um punhado de pessoas ingressava e saia em pouco tempo.

É verdade que, além de O-Sensei, tinha apenas Hirai Sensei no Kobukan Dojo?

Sim. Naquela época, Hirai Sensei estava cuidando da parte administrativa como gerente. Entre os freqüentadores estavam o Sr. Tohei e o Sr. Osawa. E o Sr. Seko, que hoje cuida dos negócios do Aikikai, ele também estava presente. Naquele tempo, no que diz respeito às aulas ministradas por O-Sensei fora do Kobukan Dojo, ele lecionava principalmente na Academia de Policia Militar, localizada em Nakano, Tókio. Eu ia com ele umas duas vezes por semana. Aparentemente, eles praticavam várias das artes marciais originais na Academia de Policia. Naqueles tempos, chamávamos estas artes de “Budo”. Lembro-me de um senhor usando roupas chinesas como um espião que tinha um cachorro militar o atacando além de fazer várias outras coisas. Eu não tinha muito conhecimento sobre os outros tipos de Budo. Nós íamos ao dojo para treinar a partir de certo horário e depois voltávamos para casa.

O senhor começou em 1942, até quando permaneceu em Tókio?

Por causa do me alistamento no exército em 1943, treinei durante um período curto. Também, Sensei ia com freqüência para Iwama, já que ele estava construindo um dojo por lá. Naquele tempo, a guerra estava piorando e grupos de resistência contra ataques aéreos estavam se formando nos bairros das cidades. O Sensei se tornou um líder desses grupos. Porém, na realidade, eu tinha que liderar o grupo. Naquela época era assim e nós treinávamos só um pouco nas manhãs e ao entardecer. Acho que foi um período solitário para Sensei. Talvez, em vez de um período solitário, tenha sido um período de transição espiritual para ele. Ele aparentava um condicionamento físico fraco. Uma vez, quando ele freqüentava a Academia da Polícia Militar para dar aulas, ele não teve condições de dar aula e foi enviado de volta para casa por causa de uma forte dor de barriga. Depois disso, quando eu já tinha parado de freqüentar o dojo, sua condição deteriorou e parece que ele estava muito doente. Aparentemente, Sensei viveu um tipo de libertação espiritual depois de ter ficado gravemente doente. Em 1935 (o segundo) Incidente Omoto ocorreu. Normalmente, Sensei seria preso por causa da repressão contra a religião Omoto. No entanto, ele não foi preso porque a chefatura da polícia insistiu que Sensei não era o tipo de pessoa que cometesse este tipo de crime (lese majeste), já que ele ministrava aulas para a polícia entre tantos outros lugares. Portanto, ele não foi permitido de ensinar seu verdadeiro Budo espiritual. Por causa disso, acho que foi um período solitário para Sensei. Como era um período em que a religião Omoto sofria represálias, ele teve que se distanciar um pouco da Omoto. Além disso, ele tinha que dar aulas para as autoridades militares no poder naquela época. Acho que foi um período difícil para Sensei e isto foi a causa do seu mal estar.

O que O-Sensei pensava sobre a Guerra?

Em Omoto, a chamávamos de “Guerra da derrota”. Omoto servia como modelo. Em outras palavras, o tipo de incidente que ocorreu com a Omoto iria acontecer também ao Japão. Antes da decisão do tribunal contra a Omoto, sua sede foi completamente destruída com dinamite. Naquele momento, sabíamos na Omoto que Japão perderia. Se Ueshiba Sensei tivesse sido preso, seu Budo teria deixado de existir e o Aikido como o conhecemos não teria sido desenvolvido. Eu acho que o fato de O-Sensei não ter sido preso e de poder ter continuado a ensinar, mesmo que para os militares, foi algo destinado pelos kami. Quando eu era seu deshi, Ueshiba Sensei me dizia, “Neste caso, esta é a técnica dada pelos kamisama”. Se for a missão apontada pelos kamisama, será transmitida de alguma maneira. Na época do Incidente Omoto, o reverendo Deguchi durante um inquérito judicial disse para todos os presentes em voz alta, “Ueshiba veio aqui para se despedir”. Uma pessoa normal teria interpretado Ueshiba como alguém cometendo um ato egoísta em que ele teria abandonado a Omoto. Mas eu não concordo com esta interpretação. Ao dizer frente a vários juizes, “Ueshiba veio aqui para se despedir”, Onisaburo Deguchi quis dizer que Ueshiba deveria trabalhar com afinco para a sociedade sem qualquer relação direta com a religião Omoto. Como resultado, o Budo de Sensei Ueshiba tem uma missão importantíssima sob o ponto de vista religioso. Acredito que Morihei Ueshiba Sensei é o único budoka cuja arte culminou do resultado dele ter recebido uma missão divina. As técnicas recebidas como parte desta missão tiveram a finalidade de criarem paz neste mundo através do caminho denominado “Aiki”. Quando toda a humanidade incorporar a lei do Céu, a paz acontecerá pela primeira vez. Isto significa conhecer o espírito do céu e da terra e de nos conscientizarmos da relação entre o espírito da proteção amorosa por todas as coisas e de tudo que nos cerca. Se isto se concretizar, chegaremos a um estágio aonde não existirá nenhum inimigo. Durante muitos anos tenho rezado ao espírito do Aikido frente ao shomen (parede frontal) do dojo. As metas do Aikido são todas expressadas nesta minha reza.

Quando foi que ocorreu este ideal de O-Sensei que o senhor acaba de descrever?

Está escrito no livro também, mas acho que O-Sensei tinha concebido este ideal por volta de 1921. Ele teve uma vivência iluminada na qual ele foi envolto por um raio de luz. Dizem que ele veio a compreender o canto dos pássaros. Está escrito que Budo é na verdade amor. Porém, não é fácil saber como proceder para incorporar este ideal em técnicas. Acho que o despertar espiritual da humanidade é algo que por ventura pode-se viver num momento passageiro em que a sensação seria, “Ahh! Agora entendo!”. O corpo humano deve passar por diferentes estágios de desenvolvimento. É igual a um bebê que é incapaz de crescer de repente. Existe um estágio de shugyo (exercícios ascéticos) em que o corpo pode crescer a este ponto. O-Sensei passou por um processo de shygyo até criar o verdadeiro Aikido e as pessoas que aprenderam em diferentes épocas com ele acham que estes períodos representam o verdadeiro Aikido. Até alguém tão imaturo quanto eu vem ensinando milhares de pessoas em Kumamoto durante 30 anos e as pessoas que treinaram em diferentes épocas adotaram um ponto de vista similar. Pessoas que aprenderam com O-Sensei desde a Era Taisho (1912-1925) até a sua morte, sabem apenas as técnicas daquela época específica em que treinaram com ele e que apenas dizem respeito ao nível espiritual em que ele se encontrava naquele determinado momento. A coisa importante é pesquisar minuciosamente o objetivo que Ueshiba Sensei tinha em mente. Se este aspecto espiritual não existisse, não haveria nenhum progresso para se atingir. Aikido se tornaria uma mera forma de jujutsu.

No meu caso, eu não passei tanto tempo com Sensei. Eu passei um período em que me sentia fraco em Kumamoto. Tinha muita gente que me resistia e que não treinava de forma cooperativa comigo. Centenas de pessoas. Antes de eu aplicar alguma técnica, eles resistiam com toda força, portanto eu não conseguia aplicar nenhuma técnica. Quanto eu tentava aplicar alguma técnica, eles bloqueavam os meus movimentos. Eu não conseguia aplicar nenhuma técnica em esse tipo de pessoa. Eu vivi um período competitivo. Como era infeliz, a sensação de não conseguir fazer nenhuma técnica com eficácia, uma sensação horrorosa! Foi uma experiência de enorme valia para mim. Quando pensava no que fazer para superar este problema, a única solução que me ocorria era de focar no aspecto espiritual do Aikido de O-Sensei. Em outras palavras, de me unificar com os meus oponentes e eliminar a idéia de inimigos. O que é harmonia? A única forma é de retirar a força das nossas técnicas. Está errado entrar em choque com o seu oponente usando força física. Mantive isto em mente todos os dias e tenho tentado expressar o aspecto espiritual do Aikido através das técnicas. Isto ganhou expressão nos meus treinos.

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