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Aikidô na América Latina

por Wagner Bull

Aikido Journal #118 (Fall/Winter 1999)

Traduzido por Jefferson Bastreghi

A América Latina é geograficamente maior em tamanho do que a Europa. Mais de 600 milhões de pessoas habitam este enorme continente com suas muitas nações. Dado seu tamanho e complexidade, é virtualmente impossível explicar exatamente como o Aikidô chegou e se desenvolveu na América Latina, sem cometer erros ou falhar em mencionar nomes e detalhes importantes. Sob esta condição, eu irei tentar descrever as principais características, personalidades e pontos altos no desenvolvimento da arte no nosso continente.

Primeiramente, diferentemente dos EUA, Europa, Austrália e poucos outros países, nenhum shihan do Aikikai foi enviado para a América Latina para ensinar Aikidô nos primórdios do desenvolvimento da arte. O Brasil tem uma grande colônia de mais de 1.000.000 de pessoas de descendência japonesa, mas até mesmo este fato não foi suficiente para atrair um instrutor de grau elevado do Aikikai. Este foi o caso até o fim dos anos 80 quando Yoshimitsu Yamada concordou em auxiliar brasileiros que tentavam aprender e ensinar Aikidô.

Brasil

Nesta visão geral, eu irei começar apresentando o Brasil, meu próprio país. O Aikidô teve seu início aqui no final de 1963. Um japonês 3º dan chamado Teruo Nakatani, que treinou no Hombu Dojô, se mudou para o Rio de Janeiro. Eu era ainda uma criança quando vi um filme de curta metragem em um cinema antes da apresentação principal sobre Aikidô e este homem. Eu ainda me recordo dos executores em saias negras voando pela grama em movimentos circulares, parecidos com balé. Isto foi antes dos dias da televisão e este era o meio para a apresentação de novidades. Nakatani era um bom líder e amado pelos seus estudantes. Alguns faixas-pretas de judô se juntaram a ele como se estivessem fascinados pela arte que permitia arremessarmos qualquer um facilmente ao chão.

Enquanto isso, em São Paulo, um acupunturista japonês chamado Toshio Kawai que tinha fixado residência no Brasil em 1958 experimentou uns seis meses de treinamento de Aikidô com Aritoshi Murashige em Paris por volta de 1960. Kawai abriu um dojô de Aikidô no seu retorno da França. Mais tarde, por volta de 1972, quando Nakatani parou de ensinar Aikidô, Kawai foi o único professor de grau elevado ativo e gradualmente assumiu o papel de liderança no Brasil. Kawai eventualmente se tornou o representante oficial do Hombu Dojô no Brasil. Ele criou competições de Aikidô com regras especiais. Com o resultado, Kawai foi permitido registrar Aikidô como um esporte competitivo junto ao Ministério dos Esportes brasileiro com a assistência de muitos generais que estavam entre os seus pacientes de acupuntura. Deste modo, ele conquistou o controle do Aikidô no Brasil através de meios legais. Ele também registrou a palavra “Aikidô” e tomou ações legais contra aqueles que usaram o termo sem sua permissão. Durante anos, vários aikidokas japoneses empregados por companhias multinacionais japonesas tentaram operar escolas de Aikidô no Brasil, mas tiveram dificuldades devido ao controle de Kawai sobre a arte.

Para ilustrar a natureza desta situação, em uma ocasião, um japonês detentor de 4º dan do Aikikai e que estava trabalhando como um executivo para uma companhia de telefonia tentou realizar uma demonstração pública de Aikidô. O evento foi interrompido no meio pela polícia que estava acompanhada de Kawai. Este incidente serviu para desencorajar tentativas similares independentes de desenvolver Aikidô fora da órbita de Kawai. Mais tarde, por volta de 1974, um instrutor japonês 3º dan chamado Ishitami Shikanai foi trazido ao Brasil por Nakatani e obrigado a trabalhar dentro da organização de Kawai para permanecer dentro dos limites legais.

Quando a Federação Internacional de Aikidô (IAF) foi estabelecida em 1976, Kawai foi eleito como o 4º Vice-Presidente com responsabilidade pela América do Sul numa época onde havia aproximadamente 200 estudantes de Aikidô em sua organização. Como o representante oficial da IAF pela América do Sul e com o total apoio do Aikikai Hombu Dojô, Kawai tentou estender sua esfera de influência para outros países sul-americanos, especialmente Argentina, Uruguai e Peru, mas seu sucesso foi limitado.

Em contraste, outras artes marciais como karatê, judô, taekwondo e t’ai chi ch’uan desfrutaram enorme crescimento no Brasil. Como um exemplo, em 1989 a Federação Brasileira de Judô reportou que tinha registrado mais de 700.000 praticantes. Em 1986, Kawai, já um 7º dan, liderava um grupo consistido de quase 12 escolas depois de estar ensinando ativamente por uns 20 anos. Suas políticas resultaram em muitas reclamações feitas para o Aikikai no Japão, mas por enquanto, nenhuma ação foi tomada para alterar a situação brasileira.

O crescimento natural do Aikidô no Brasil foi restringido por muitos anos devido a esta situação, como também foram as possibilidades de intercâmbio com o resto do mundo. Penso que o status do Aikidô no Brasil foi pouco compreendido no Japão e outros lugares. Kawai, através de suas conexões políticas, foi capaz de arranjar prêmios para o Fundador do Aikidô Morihei Ueshiba e para o segundo Doshu Kisshomaru Ueshiba.

Em 1988, eu e muitos políticos, advogados e antigos estudantes de Kawai tivemos sucesso em provar ao governo brasileiro que o Aikidô não era uma arte competitiva e que a palavra “Aikidô” não podia ser registrada. Como um resultado deste esforço, Kawai perdeu seu monopólio formal sobre o Aikidô. Devido a discordâncias internas, Kawai renunciou como presidente de sua organização reconhecida pela IAF chamada FEPAI (Federação Paulista de Aikidô) em 1991. Seu sucessor foi um dos estudantes de Kawai chamado Makoto Nishida, agora um 6º dan.

Nosso grupo mandou cartas para mestres de Aikidô ao redor do mundo para informá-los da mudança na situação. Nós recebemos somente uma resposta do sensei Yoshimitsu Yamada de Nova Iorque que escreveu que não era segredo no Japão que havia problemas com o Aikidô no Brasil. Ele também indicou que ele poderia conseguir o apoio do Hombu Dojô se eu decidisse formar minha própria organização. Eu viajei para Nova Iorque para falar com Yamada Sensei e desde essa época me tornei seu aluno. Logo após, Yamada Sensei começou a nos apoiar e passamos a receber certificados do Aikikai. Isto aconteceu apesar da regra da Federação Internacional de Aikidô que somente uma organização por país receberia reconhecimento oficial do Hombu Dojô.

Neste ambiente livre, o Aikidô no Brasil começou a crescer muito rápido. Ishitami Shikanai, atualmente um 6º dan, assistido por seus alunos mais antigos, obteve grandes progressos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, e especialmente em Brasília. Também, Yamada Sensei começou a vir todo ano ao nosso país e muitos dos seus alunos mais graduados tais como Donovan Waite, Peter Bernath e Jane Ozeki começaram a nos visitar freqüentemente com a conseqüência que nosso nível técnico começou a melhorar.

Hoje no Brasil há uns 300 dojôs no país todo com talvez 6000 estudantes praticando diariamente. A comunidade de Aikidô é dividida em 4 grandes grupos. O maior está ligado a Yamada Sensei e tem seis shidoin: Wagner Bull, Severino Salles, Carlos Dutra, Ricardo Leite, Breno de Oliveira e Eichi Kikuchi, o último sendo o filho do homem que introduziu a macrobiótica no Brasil. Os professores acima lideram as organizações que juntas formam o Brazil Aikikai. Nossa organização não é reconhecida pela IAF apesar de ser a maior associação do Brasil, devido à política míope que limita o reconhecimento a apenas uma organização por país. Em 1997, nós organizamos um dos maiores seminários de Aikidô do mundo com Nobuyoshi Tamura e Yoshimitsu Yamada, com a participação de 702 pessoas. As outras três organizações brasileiras são o grupo Shikanai, a organização FEPAI – ainda a única reconhecida oficialmente pela IAF – e outro grupo criado por Kawai que reiniciou suas atividades em 1990. Ele estabeleceu, desde então, uma afiliação com Masatake Fujita Shihan, que veio ao Brasil nos últimos quatro anos. Em 1998, Kawai foi promovido a 8º dan, o mesmo nível que shihan treinados no Hombu Dojô, tais como Tamura, Yamada, Chiba, Sugano e Kobayashi. É difícil para nós no Brasil entendermos como ele poderia ter o mesmo grau dos shihan mencionados acima, que estudaram diretamente com o Fundador. É possível que a mesma coisa ocorra em outros países?

Argentina

O Aikidô foi introduzido na Argentina através dos esforços de Kenzo Miyazawa – então primeiro dan – em 1964 (veja entrevista em Aiki News #97). Em 1966, ele trouxe um amigo chamado Katsutoshi Kurata para ajudá-lo. Estes dois se tornaram os representantes oficiais da IAF na Argentina. Eles não eram nem de alta graduação na época e, devido ao alto custo para viajar para o país deles, foram deixados sozinhos para se desenvolverem às próprias custas. Em 1978, Masafumi Sakanashi, que nasceu no Paraguai como filho de imigrantes japoneses, retornou para a Argentina após aprender Aikidô no Japão. Sakanashi também praticou o karatê Kyokushinkai de Mas Oyama no Japão e começou a ensinar um tipo marcial de Aikidô na Argentina. O seu grupo se tornou a terceira organização naquele país. Muitos poucos shihan visitaram a Argentina desde que Yoshimitsu Yamada começou a ensinar lá em 1993 através do convite do grupo de Sakanashi. Sakanashi, agora um 6º dan, tem dois alunos 5º dan, Juan Tolone e Ricardo Corbal. Muitos shidoin enviados por Yamada Sensei foram convidados a conduzir seminários na Argentina, assim como no Brasil.

Uruguai

No Uruguai, um estudante de Miyazawa chamado Cela é o encarregado pelo Aikidô e representante oficial da IAF. Um segundo grupo filiado ao Yamada Sensei é presidido por Luis Sefong.

Chile

O líder do Aikidô no Chile é Jorge Rojo Jr., que praticou com Nobuyoshi Tamura Sensei e depois treinou com Yamada Sensei, que o promoveu a 5º dan. Outro estudante de Yamada Sensei chamado Elson Olea tem um grupo independente representando a Federação Latino-americana de Aikidô (FLA) no Chile.

Panamá

O Aikidô é uma arte marcial nova no Panamá. Um japonês chamado Saito visitou e ensinou Aikidô neste país por muitos meses em 1975. Uns dez anos depois, Jorge Rojo foi para o Panamá e abriu oficialmente um dojô de Aikidô. No seu retorno ao seu país natal, o Chile, em 1986, Rojo deixou sete faixas pretas, alguns dos quais ainda estão ativos. Em 1991, o grupo se reorganizou e formou o Panama Aikikai, com Manuel Ruiz, um engenheiro industrial, como presidente e instrutor chefe. Ruiz começou a treinar com Jorge Rojo e continuou a praticar com Nelson Andujar do Miami Aikikai e foi um instrutor assistente naquele dojô. Ruiz retornou ao Panamá em 1991 e começou a ensinar lá. Seu dojô de Aikidô opera sob a supervisão de Yamada Sensei e é filiado à FLA. Esta organização foi criada em torno de Yamada Sensei que uniu muitos grupos latino-americanos a fim de organizar e disseminar a arte nesta região. Este ano, Seijuro Masuda, um shihan do Aikikai, conduziu um seminário no Panamá. A organização Panama Aikido tem agora oito faixas pretas. A Base da Força Aérea Americana Albrook tem um grupo de Aikidô ensinado pelo Panama Aikikai. O Panamá sediará o Quinto Encontro Internacional da FLA.

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