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Rinjiro Shirata (1)

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por Stanley Pranin

Aiki News #62 (July 1984)

Traduzido por João Cunha

A seguinte entrevista a Rinjiro Shirata Sensei, 9º dan da Prefeitura de Yamagata é a primeira parte de um conjunto de duas, e foi realizada a 4 de Junho de 1983 na casa de Shirata Sensei.

Apesar de a história do Aikido ser muito importante, podemos dizer, infelizmente, que não existe muita informação publicada no que se refere ao período pré-Guerra (II Guerra Mundial).

Não existem praticamente nenhumas publicações com excepção da obra “Budo Renshu”, no entanto havia algo com o nome de “mokuroku”, o mokuroku do Daito-ryu. Está relacionado com “ikkajo” e técnicas semelhantes. É um documento muito antigo, com conteúdo semelhante ao “Budo Renshu”. Em 1938, era dada uma cópia do “Budo” a todas as pessoas envolvidas com o Aikido.

O “mokuroku” é o documento que leu na demonstração de “Budokan” Aikido?

Não, não é esse documento. Eu li um poema intitulado “Ueshiba Sensei o tatou” (Em louvor a Ueshiba Sensei), que louva a Ueshiba Sensei como um kami incarnado. Quer Ueshiba Sensei quer Goi Sensei estavam profundamente envolvidos em práticas espirituais, por isso conheciam-se um ao outro muito bem. Foi por isso que Goi Sensei escreveu ele próprio este poema em louvor a Ueshiba Sensei. Foi publicado no álbum fotográfico de memórias. Eles conheceram-se depois da Guerra.

Conheceu directamente Goi Sensei?

Não. Conheci-o através de Ueshiba Sensei. Depois de ler o poema em louvor a Ueshiba Sensei, comecei a admirar Goi Sensei. Senti que Goi Sensei era a pessoa que melhor sentia a divindade de Ueshiba Sensei.

A forma de estar espiritual de Ueshiba Sensei era fortemente influenciada pela religião Omoto.

Bem, sim, eu penso que a Omoto influenciou-o bastante. Apesar de como já deve saber através da leitura do álbum fotográfico de memórias ou através das histórias sobre Ueshiba Sensei, ele era persistente no seu estudo do Budo. Uma vez que não conseguia atingir o seu objectivo, juntou-se à Omoto e atingiu a iluminação. Contudo, não estando ainda satisfeito, foi por iniciativa própria a lugares como Nachi e Kurama (prefeituras de Wakayama e Kyoto, respectivamente) para se iniciar em práticas de ascetismo. Como resultado foi iniciado nos segredos do Budo.

É um crente da religião Omoto?

Sim, o meu pai também era um crente. Ueshiba Sensei e o meu pai conheceram-se através do seu envolvimento na Omoto. Isso levou o meu pai a desejar que eu treinasse Aikido. Eu entrei no dojo no período Kobukan. Foi no final de 1931 ou no princípio de 1932.

Que idade tinha na altura?

Uma vez que foi no princípio do período Kobukan, deveria ter dezoito ou dezanove anos. Na altura treinavam Akawaza Sensei e Yonekawa Sensei. Os seus sempai eram Iwata Sensei, Yukawa Sensei e Kamata Sensei.

Como descreveria o ambiente do dojo na altura?

O ambiente do dojo na altura era completamente diferente do actual. Havia um altar com um manuscrito pendurado, no qual se encontrava escrito no centro “Takehayasusanou no ookami, Futsunushi no ookami” e “Takemikazuchinoookami”. A esposa de Onisaburo Deguchi chamava-se Sumiko e era a secunda em hierarquia da religião Omoto. O marido da sua filha, (Naohi) o terceiro em hierarquia chamava-se Hidemaro e escreveu os caracteres com os seus dedos. Eles representam o nome de três kami do Budo. Ueshiba Sensei venerava muito os três. O manuscrito era colocado na posição mais elevada do altar e Sensei ia até lá e recitava preces Xintoístas. Ueshiba Sensei estava sempre com os Kami. Penso que ele estava envolvido nestas práticas há já algum tempo antes. Nós memorizávamos as preces naturalmente. Deslocávamo-nos andando de joelhos de uma forma natural seguindo o seu exemplo.

Do seu ponto vista, Sensei, em que altura é que O-Sensei se encontrava no seu nível mais elevado de desenvolvimento, antes ou depois da Guerra?

Creio que ele estava no seu melhor nos últimos anos da sua vida. Acredito que ele atingiu o seu nível mais elevado de desenvolvimento depois dos anos de Iwama. Quando eu entrei no dojo, tinham passado cerca de três anos depois de Ueshiba Sensei vir para Tokyo vindo de Kyoto. Foi exactamente nos anos intermédios do seu “shugyo” (treino asceta). Todos os dias eram “shugyo”. Na realidade, o treino de Ueshiba Sensei era muito mais longo que o nosso. Parecia que era através do treino que a sua energia era activada.

Acha que a atitude de Ueshiba Sensei perante o budo mudou bastante como resultado da sua experiência na Guerra?

Pode-se dizer que ele mudou depois da Guerra. Aikido servia originalmente para harmonizar por isso penso que ele ficou ainda mais interessado em relação a isso. Depois de perdermos a Guerra ele enfrentou a realidade e continuou a aprofundar o estudo do budo. De qualquer maneira, era um período em que tínhamos que nos estabelecer pessoalmente. No nosso período havia muitos “fura” dojo que nos vinham desafiar.

Tenryu era…

Tenryu não era um “fura dojo“ mas desafiou O-Sensei pensando que tipo estranho de homem velho ele era. Mas foi estrondosamente derrotado. Ele entrou no dojo unicamente por ter sido derrotado. Não era uma altura em que se praticava Aikido somente por que se desejava como actualmente. Aqueles que estavam envolvidos activamente nas artes marciais juntavam-se a um dojo só porque tinham perdido um desafio. Não se tinha de juntar a um dojo se tivesse ganho. Era uma altura em que se tinha de vencer no Budo. Nós uchideshi (alunos residentes) tínhamos absolutamente de vencer todos os que vinham nos desafiar. Se nós não derrotássemos os que pensavam que nos poderiam vencer facilmente apesar de não haver forma de derrotar O-Sensei, iriam fazer pouco de nós. Não podíamos de modo algum perder. Era por isso que o nosso dojo costumava ser chamado “Dojo do Inferno”.

O treino dos uchideshi antes da Guerra era algo diferente do dos alunos.

Não havia algum tipo de treino especial para os uchideshi. Se havia era o período da “Associação de Promoção do Budo” em Takeda. Nesse dojo só havia alunos do tipo uchideshi. Não havia aulas específicas para ushideshi. Nunca praticávamos técnicas segundo uma ordem específica. Não era uma prática onde éramos ensinados. Como disse antes, Ueshiba tinha o seu próprio treino. Por isso, ele praticava as técnicas que queria. Esse era o seu treino. A forma de Ueshiba Sensei explicar as técnicas começava por dar os nomes de kamisama (divindades). Depois disso, ele explicava o movimento. Ele disse-nos: “originalmente o Aikido não tinha qualquer forma. Os movimentos do corpo em resposta ao estado de espírito do indivíduo transformaram-se nas técnicas”.

Como podiam os principiantes aprender técnica básica na altura?

Eles aprendiam técnicas com os uchideshi começando pelo “ikkajo” do Daito-ryu Jujutsu. Técnicas como ikkajo, nikajo, shihonage. Não havia qualquer irimi nage. Havia técnicas que, após uma reflexão posterior, podem ser consideradas como os antecedentes do irimi nage. Irimi nage era uma técnica originalmente criada por O-Sensei. As técnicas de Sensei estavam sempre a mudar. As técnicas que tinham origem no Daito-ryu foram transformadas em Aiki e enquanto ele se treinava a ele próprio, gradualmente as suas técnicas alteravam-se. É por isso que as técnicas que Tomiki sensei aprendeu, as técnicas que nós aprendemos, as técnicas que Shioda Sensei aprendeu e as técnicas que Murashige aprendeu antes disso, são completamente diferentes. Por vezes Sensei dizia-me: “Shirata, as minhas técnicas mudaram. Repara!” Por isso eu observava-o. Elas tornaram-se circulares de um modo completamente diferentes das técnicas anteriores. A pessoa que sistematizou e aperfeiçoou essas técnicas foi o actual Doshu (Kishomaru Sensei).

Parece que manteve o sabre de O-Sensei tal como era antes da Guerra.

Ele não nos ensinou o sabre directamente. Ele praticava sozinho. Nós aprendemos observando-o. Quando eu era uchideshi Ueshiba Sensei costumava convidar um mestre de Katori Shinto-ryu para aprender o sabre. O-Sensei por vezes estudava-o por algum tempo. (Nota: O ken manifesta-se através do corpo e os movimentos do corpo manifestam-se através do ken. Isto resulta que diferenças subtis na respiração (kokyu) vindas do ki resultam em mudanças no ki e estas por sua vez tornam-se nos movimentos do corpo. Estes movimentos tornam-se em taijutsu que se torna no ken.)

O-Sensei nos últimos anos usava o ken para explicar técnicas. Ele fazia o mesmo antes da Guerra?

SHIRATA SENSEI: Sim, ele usava o ken quando praticávamos shihonage antes da Guerra. Ele dizia que o ken e o corpo eram um só e que o mesmo era válido para o jo. Nós fomos ensinados que a mente é a fonte do movimento e que o movimento do corpo reflecte-se no movimento das mãos que se tornam no jo. Assim, o jo é uma extensão da mente.

O que é que professores de outros Budo pensavam do ken de O-Sensei?

SHIRATA SENSEI: Eu penso que eles achavam que era muito fora do vulgar. Os professores naquela altura estudavam todos os Budo de topo. Hakudo Nakayama Sensei e Sasaburo Takano na altura estudavam as formas marciais de topo. Eles praticavam todas as formas das escolas mais antigas bem como as do Kendo actual. Entre essas formas, reside o espírito do fundador de cada uma dessas escolas. A expressão do espírito torna-se na técnica. Se O-Sensei via as técnicas dessas escolas de topo, ele percebia o seu espírito.

Teve alguma vez oportunidade de ver Sokaku Takeda Sensei?

SHIRATA SENSEI: Sim, vi-o duas ou três vezes. No entanto, raramente falava com ele. Apesar de ser pequeno era bem constituído. Os seus olhos eram penetrantes.

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