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Percepções e Decepções

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por Stanley Pranin

Aiki News #89 (Fall 1991)

Traduzido por Jefferson Bastreghi

No nosso papel como cronistas de Aikidô e Daito Ryu-Aikijujutsu, nós tomamos contato com um grande número de partidários de diversos estilos e abordagens dessas artes marciais. As ênfases dos vários grupos varrem uma gama que abrange desde os orientados para o físico e defesa pessoal até os estilos “espiritualmente” inclinados para os quais a técnica é de importância secundária. Apesar destas diferenças consideráveis, eu freqüentemente encontro uma característica comum na mentalidade dos praticantes destas diversas seitas. Eu irei me referir a ela como a síndrome do “crente fiel”.

Dentro do contexto destes grupos, o principal professor toma uma proporção quase super-humana e é considerado por membros como incomparável em habilidade técnica e/ou compreensão espiritual. Embora estes crentes fiéis possam não verbalizar as suas convicções da superioridade do seu professor (na verdade as opiniões deles são usualmente expressas através de insinuação), as suas palavras e conduta deixam pouca dúvida sobre suas considerações a este respeito.

Desde meus anos de universidade eu tenho sempre tido um entusiástico interesse em lingüística e, embora meu treinamento formal nesta disciplina não é extensivo, eu tenho lido um pouco a partir da fascinação pelo assunto. Uma das teorias neuro-linguísticas que têm tido algum sucesso nos anos recentes alega que nós, como indivíduos, temos nossos próprios sistemas representacionais altamente particularizados, que nós usamos para interpretar e interagir com a realidade. A formulação destes sistemas é uma tentativa dos indivíduos de compreender os seus ambientes, desta forma tornando possível uma série significativa de decisões e ações, as quais afetam todos os aspectos de suas vidas. Usualmente o indivíduo não percebe que o sistema representacional que ele ou ela desenvolveu é meramente uma abstração baseada em uma amostragem limitada de experiências pessoais. Isto é, não há correspondência direta entre realidade como ela é percebida pelo indivíduo e realidade como ela realmente é. Assumindo-se que realidade possa ser conhecida, que é em si outro ponto filosófico espinhoso. O valor do sistema representacional é então não uma função de sua veracidade ou, se você prefere, fidelidade como um espelho da realidade, mas mais propriamente sua utilidade em guiar alguém com sucesso em sua jornada através da vida.

Algumas visões das pessoas da realidade evoluem durante suas vidas, enquanto outras se tornam endurecidas e resistentes à mudança. Uma avaliação do fato que nosso entendimento do mundo ao redor de nós é nada mais do que uma abstração baseada na soma de nossas percepções subjetivas pode ser valiosa, pois ela nos permite uma tolerância maior de opiniões diferentes asseguradas por outros e uma capacidade contínua para mudanças construtivas em nós mesmos.

Retornando ao Aikidô, a atitude que o professor de alguém é o expoente supremo da arte tem muitas conseqüências indesejáveis. Primeiro de tudo, ele cria uma mentalidade competitiva “nós versus eles”, a qual, pelo meu entendimento, é antiético ao espírito de harmonia presente no âmago do pensamento do Aikidô. Além disso, alguém que tem uma crença absoluta na grandeza de seu professor está num ponto de apoio psicológico precário, desde que a eventual descoberta ou exposição à fraqueza humana no professor pode ser totalmente negada pelo crente, ou se aceita, leva a um choque emocional severo enquanto que a figura de adulação tomba de seu pedestal. Eu tenho visto em muitos casos, os quais eu considero como tristemente irônicos, onde crentes fiéis vagueiam de dojô a dojô, cada vez expondo a superioridade do seu professor atual.

Outra conseqüência indesejável esperando pelos grupos que mostram esta mentalidade é que a atitude extrema e intolerância a outras abordagens tende a isolá-los da comunidade geral do Aikidô. Eles se encontram distanciados dos seus pares quase da mesma forma como expoentes agressivos de várias religiões se encontram isolados na sociedade.

Em conclusão, eu me recordo de um artigo que li há algum tempo atrás onde o escritor expressou a crença que “Morihei Ueshiba é sem dúvida o maior artista marcial de todos os tempos”. Esta opinião foi expressa com grande seriedade e serviu como base para demonstrar a validade das outras afirmações do autor. Escondidas nesta afirmação ridícula estão inúmeras suposições que são improváveis. O que nós podemos juntar de tal declaração é informação sobre as crenças e estado psicológico do escritor muito mais do que qualquer entendimento sobre a proeza marcial do fundador do Aikidô Morihei Ueshiba. O escritor tem conhecimento direto de todos os grandes artistas marciais de todos os tempos em todas as culturas? Ele tem um sistema válido de medida de poder marcial de tal modo a permitir uma comparação entre muitos mestres? A quais atributos “o maior” se refere? Obviamente, ninguém poderia nunca alegar tal coisa sem ser considerado um sabe-tudo. De fato, qualquer um realmente capaz de fazer tal declaração teria que ser considerado como maior do que seu professor desde que nós teríamos que conferi-lo poderes divinos de onisciência, se levarmos sua opinião a sério!

Aiki News recebe um número surpreendente de cartas de leitores solicitando que correspondências sejam repassadas para senseis japoneses. Por favor, entendam que nós não temos os recursos para prover tal serviço. Os professores em questão freqüentemente nos contactam e pedem para fornecermos uma tradução de sua carta e então compor uma resposta que teríamos que traduzir do japonês para o inglês. Isto é muito para nós lidarmos.

A etiqueta correta seria você escrever para o professor em questão em japonês (A Enciclopédia de Aikidô do Aiki News contém endereços para a maioria dos professores proeminentes de Aikidô e Daito-Ryu Aikijujutsu do mundo) diretamente e continuar quaisquer correspondências naquela língua. Escrever uma carta para um professor japonês em inglês não é polido e usualmente causa muito desconforto para a pessoa envolvida.