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Treinamento “Solitário” – Porque Iai?

por Ellis Amdur

Published Online

Traduzido por Jaqueline Sá Freire – Hikari Dojo, R.J.

Alguns praticantes de artes marciais modernas ridicularizam o treinamento com kata, alegando que estar preso à forma é em si uma fraqueza. Eles dizem que assim a pessoa treina respostas estereotipadas pela repetição, tornando-se assim incapazes de responder livremente a um ataque aleatório, imprevisível. Por outro lado, a liberdade de uma pessoa é limitada por sua organização neurológica – padrões estereotipados de ação e reação treinados através de outro tipo de treinamento de kata – os padrões habituais, repetitivos de movimentos que se adquire vivendo. O treinamento apropriado de kata é, de fato, uma forma de se ensinar ao sistema nervoso novos padrões de respostas. Sem repetições suficientes - idealmente, repetições às quais se está completamente atento – o sistema nervoso não desenvolverá novas interconexões para coordenar os novos padrões de resposta. Paradoxalmente, é com a limitação seguindo regras que se pode chegar à liberdade.

Sem duvida, o kata é limitador em certo sentido, mas a concentração e a limitação também causam a criação de habilidades que de outra forma não se desenvolveriam. Por exemplo, o golpe chamado “gancho” nunca teria sido inventado, se os arremessos cruzados de quadril, que são um contra ataque devastador contra socos giratórios, não tivessem sido eliminados do boxe. Da mesma forma, uma postura ereta, que impulsionou o desenvolvimento de muitos dos arremessos sofisticados do judo, que são muito superiores aos arremessos menos refinados dos antigos sistemas de jujutsu, foi em parte um produto dos ideais de Kano Jigoro sobre a educação moral e física dos praticantes do esporte.

Em comparação com muitas outras tradições de luta, o treinamento solitário não é muito enfatizado nas artes marciais japonesas. As artes marciais chinesas são um exemplo oposto. Recentemente me envolvi novamente e apaixonadamente com o treinamento em Xingyi, treinando pelo menos duas horas por dia. Xingyi, que literalmente significa “forma direcionada pela força de vontade” é, definitivamente, um sistema de treinamento neurológico. O método mais importante da prática de Xingyi é a prática solitária. (é verdade que, em um nível posterior, se pratica com um parceiro, e em níveis ainda mais altos, o parceiro é considerado essencial, mas mesmo assim, a forma solitária é considerada a base de tudo). Eu acho que a repetição incessante e concentrada dos mesmos movimentos começaram a modificar minha resposta “instintiva” à uma oposição não treinada ou aleatória, isto é, ao treino com um parceiro.

Quando penso sobre isso, em koryu eu fiz mais treinamento solitário que com um parceiro. Por muitos anos, eu treinei sozinho por horas, geralmente lá pela meia-noite, em um santuário Shintoísta que ficava por perto (infelizmente nunca recebi visitas dos demônios das montanhas – nem dos demônios dos subúrbios – durante meus treinamentos). Eu treinava um lado da forma ou o outro, ou simplesmente fazia suburi. Como eu praticava os movimentos por tantas vezes, eles se tornaram “naturais” para mim. Quando assumo uma postura do Araki-ryu ou do Buko-ryu, é como apertar as teclas de um computador, e um programa completo entra em ação. O resultado disso é que quanto faço uma prática com um parceiro, eu tenho “espaço” para me preocupar com meu parceiro/inimigo, e realmente tomo cuidado com o espaço, com o kiai, etc., porque o lugar de meus pés, a posição de meus braços, o padrão de minha respiração, etc., é quase instintivo. Assim, meu treinamento de koryu acaba sendo semelhante ao meu treinamento em Xingyi.

Isso me leva a falar sobre iai, a peculiar prática em que se isola um único aspecto do treinamento com espada — desembainhar e embainhar a arma, transformando isso em um estudo muito especializado dentro de um ryu, ou um estudo completo por si só. Nos ryu mais antigos, o iai era um método de treinamento auxiliar. Mas porque ele foi incluído no currículo? Muitas outras culturas que também tem ligação com as espadas nunca fizeram desta prática parte de seus treinamentos.

A espada, de forma diferente das outras armas, era muito mais que um objeto que alguém apanhasse para usar em combate e depois deixasse de lado em tempos de paz. Era tão essencial como uma parte da roupa para um bushi como seu kimono ou o hakama. Ele tinha que saber tudo sobre ela – desde a limpeza até como caminhar com ela e colocá-la em uma posição apropriada durante uma conversação. E, é claro, desembainhá-la e recolocá-la na bainha eram gestos que não ocorriam apenas em combates. Muito mais vezes elas eram usadas para o treinamento, e também eram expostas e mostradas para outras pessoas.

O iai é tipicamente descrito como um método de treinamento para aprender a lidar com ataques de surpresa, ataques noturnos, ou para lutar agachado em lugares com o teto baixo, por exemplo. Isso certamente é parte da verdade, mas o iai serviu para propósitos ainda maiores. Antes de tudo, é uma beleza, e muito mais interessante a prática solitária que o suburi, tanto pela utilidade como pela complexidade – assim, o praticante solitário tem uma maneira de manter o interesse por longos períodos de prática, bem como pode fazer uma atividade mais complexa que o suburi, e menos inventada que praticar “meio kata” contra um oponente imaginário. Alem disso, funciona como o equivalente a um curso de segurança no uso de armas de fogo. A preparação das formas e nas formas em si, equivale à limpeza da arma, checagem da munição, atenção ao uso da arma, etc. era tão essencial que foi incluído nos mais antigos bujutsu, e, em muitos sistemas, sua ausência era considerada uma falha tão grande que depois ele foi adicionado ao currículo.

Como outras atividades, sua prática passou a ser importante por si só, e o iai posteriormente se transformou em iaido, um treinamento especializado que, apesar de sua limitação, leva ao mesmo tipo de técnica altamente sofisticada, como limitações semelhantes causaram aos já mencionados judo e boxe. É verdade que este tipo de refinamento só ocorre em tempos de paz. A sofisticação é um luxo. Alguns alunos de koryu e praticantes ridicularizam as disciplinas modernas e mais especializadas como manifestações de enfraquecimento. Mas como é afortunada uma sociedade que tem suficiente tempo de paz para que seus membros possam se dedicar a criar esportes ou disciplinas para o auto-estudo a partir de métodos de luta puramente pragmáticos.

Nota da tradutora: Suburi são exercícios de corte, individuais e repetitivos, muito usados no kendo. A palavra ko significa antigo, e ryu significa escola ou linha de pensamento. Koryu significa escola (ou estilo, ou tradição) antiga.