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Aikido no Hanashi

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por David Dimmick

Aiki News #23 (May 1977)

Traduzido por Alberto Silveira Ramos

Há algum tempo atrás, um jovem estudante Americano, que tinha acabado de receber a sua graduação de shodan em Aikido, decidiu visitar e treinar no Japão. No sentido de financiar a sua viagem e ganhar crédito académico, submeteu uma proposta para o estudo da história do Aikido e seu desenvolvimento a partir de outras artes marciais. Tal proposta estava tão convincentemente escrita, que ele recebeu uma bolsa total por um ano. Após um curso intensivo de japonês, com a duração de 10 semanas no Centro Leste-Oeste, no Havai, partiu para a terra do Sol Nascente.

O ansioso jovem devoto do Aikido dirigiu-se a um dojo em Aomori onde sabia que o professor era excepcional não só em Aikido, mas também noutras artes marciais. Tinha a sensação de que este seria o melhor sítio para as suas pesquisas e treino. À sua chegada, parecia que o professor tinha tomado o jovem entusiasta americano sob a sua asa. Isto foi mal interpretado por alguns dos estudantes mais antigos do dojo. Um estudante, um 4º dan, que estava particularmente ressentido, quis ver quão bom era o Aikido deste estrangeiro.

Uma noite, perto do final do treino, quando o professor foi chamado para fora do tapete por uns instantes, o discípulo viu a sua oportunidade. Após um breve “onegai shimasu”, eles começaram uma prática vigorosa. Conforme a cadência aumentava, o americano apercebeu-se das intenções do discípulo, e embora estivesse cansado, estava determinado a fazer uma boa exibição. “Não é apenas para a minha aceitação”, pensou ele, “mas para mostrar que o treino na América pode ser tão bom como no Japão”. Ao aperceber-se da força renovada e da resistência do seu oponente, o discípulo entendeu que se tratava de uma aceitação muda do seu desafio. Dando-lhes espaço, os outros estudantes começaram a afastar-se e a observá-los. O americano investiu, de braços esticados para lhe agarrar ambas as mãos. O japonês rodopiou, e como se estalasse um chicote, trouxe o americano à volta, encarando-o. Com um movimento de corte de uma espada, o decidido 4º dan arremessou o cutelo da sua mão sobre o pulso torcido do americano atirando-o, violentamente contra o tapete. A resposta foi vagarosa devido à fadiga, ouviu-se o som de um estalido e o americano largou um arfar de dor. Rapidamente libertado, o americano tomou a posição de “seiza” e curvou-se sobre o seu pulso.

Com uma atrapalhação de “daijobu? daijobu?” (Não há problema?), os outros estudantes rodearam o jovem estrangeiro ferido, ajudaram-no a levantar-se e escoltaram-no para fora do tapete. Movendo-se na orla do grupo consternado, as faces dos alunos pareciam mostrar uma esbatida satisfação.

Pouco tempo após, o professor entrou de rompante na sala, dirigindo-se ao aleijado, seguido por estudantes que traziam gesso, água e ligaduras. Então, cuidadosamente, ele tomou o pulso partido e fez uma inspecção experiente. Havia uma ansiedade nervosa, mas ninguém falou ou atreveu a afastar-se. Em quinze minutos a mistura de ligadura e gesso começou a endurecer. Limpando as mãos, o professor, pensativo, afastou-se um pouco e olhou para os estudantes ansiosos. O perturbado mestre pareceu crescer em altura conforme a sua face escurecia de raiva. Baixa e determinada, a sua voz saiu com a força de um Deus. “Sore wa dame da!”, ele gritou. Num inglês sincopado, um japonês próximo traduziu para o confuso americano. O professor continuou: “Isto é uma vergonha para o Aikido. O-Sensei quis eliminar esses conflitos de vaidade, orgulho e raiva”. Dirigindo o seu olhar para o aluno ferido, ele disse: “Tu não devias ter excedido as tuas capacidades apenas para demonstrares que, como estrangeiro, és merecedor. Isso é orgulho. Agora vais ter de aguardar vários meses até poderes treinar novamente. Perdeste um tempo precioso.”

O professor voltou-se então para o discípulo. “Esta não é a primeira vez”, disse ele ameaçador, “tu és uma desonra para a arte. Há anos que O-Sensei baniu todas as disputas no Aikido depois dele próprio ter sido responsável por uma lesão permanente que provocou a um grande artista marcial, num duelo. Quando O-Sensei percebeu que esse homem nunca mais seria capaz de praticar novamente, ele viu que as disputas nas artes marciais têm sempre consequências destrutivas. Testaste este estrangeiro por uma questão de vaidade e quando sentiste que ele era insolente na sua resistência, foi a cólera que imprudentemente o feriu. Não há nenhuma razão aceitável para perder o controle durante a prática. Partilharás com ele a sua perda. Não permitirei que pratiques no meu dojo até ele poder praticar de novo”, disse o professor apontando para o americano. “ Exijo que ambos assistam às aulas diariamente, sem falta. Vão sentar-se juntos a observar a prática. Esta será uma oportunidade para aprofundarem o conhecimento do verdadeiro espírito do Aikido e de superarem as vossas diferenças”.

E assim foi.