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Morihei Ueshiba e Kisshomaru Ueshiba

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por Stanley Pranin

From Japanese Wushu Magazine

Traduzido por William Soares

Segundo Doshu do Aikido,
Kisshomaru Ueshiba

Nosso artigo de aikido para este número Wushu foca o Aikido do Doshu Kisshomaru Ueshiba. Como filho do fundador do aikido Morihei Ueshiba, Kisshomaru sucedeu o seu pai como Doshu após a morte deste em abril de 1969. Como nós veremos, o papel de Kisshomaru Sensei no desenvolvimento pós Guerra do aikido foi de extrema importância, e a atual imagem e status da arte no Japão e no exterior está diretamente relacionado aos seus esforços. Isso sem falar de vários outros proeminentes senseis de aikido como Gozo Shioda, Kenji Tomiki, Koichi Tohei, e Morihiro Saito apenas para nomear alguns poucos que realizaram significante contribuição para o prestígio do aikido, mas Kisshomaru Sensei como “Doshu” e sendo aquele que toma as mais importantes decisões do “mainstream” (corrente principal) do aikido tem estado em posição de deixar uma forte marca pessoal na arte.

Kisshomaru Ueshiba nasceu em Ayabe na Prefeitura de Kyoto em 27 de junho de 1921 como quarta criança e terceiro filho de Morihei Ueshiba. O Fundador estava, na época, vivendo com a sua família próximo do principal centro da Omoto em Ayabe onde ele era um ativo membro e colaborador da religião. Ele também treinava alguns alunos em um pequeno dojo que fazia parte de sua casa e que era chamado de “Ueshiba Juku.” Foi ali que o famoso professor de Daito-ryu, Sokaku Takeda esteve e passou vários meses em 1922. Kisshomaru Sensei ainda tem lembranças de menino desse período cheio de cores no desenvolvimento do aikido.

Morihei Sensei se mudou com sua família para Tóquio em 1927 onde Kisshomaru completou a maior parte de sua educação formal. Perguntado em 1983 quando ele começou a treinar, ele respondeu: “existe um prvérbio japonês que diz, ‘um menino perto do templo irá cantar um sutra jamais ensinado.’ Da mesma forma, eu comecei a minha prática quando eu era apenas um menino sem mesmo me dar conta disso… Cerca de 1936 era o meu dever servir de uke para o meu pai lhe atacando com a espada quando ele ia para lugares a fim de realizar demonstrações. Eu pratiquei um pouco de kendo… e [também] estilo antigo da Kashima Shinto-ryu.” Já no manual de treinamento de 1938 intitulado “Budo”, publicado por Morihei, o seu filho aparece em muitas das fotos como uke.

Depois de completar a formação escolar, Kisshomaru ingressou na Universidade de Waseda na qual ele se graduou em economia em 1942. Também foi nesse período, no início da Segunda Grande Guerra, que Kisshomaru estava encarregado das operações do Kobukan dojo pelo Fundador que havia se retirado para a vila de Iwama na Prefeitura de Ibaragi. Naquele tempo, o dojo estava quase vazio de estudantes e as responsabilidades de Kisshomaru eram principalmente administrativas. Também foi, coincidentemente, em 1942 que o termo “aikido” foi oficialmente adotado de acordo com a política de padronização de nomes do Dai Nihon Butokukai. Ao lado do desgaste de suas obrigações devido ao esforço de guerra, o edifício do dojo estava em perigo físico devido ao bombardeamento de Tóquio. Em uma ocasião enquanto ainda era estudante da universidade de Waseda, Kisshomaru, com a ajuda de vários vizinhos, conseguiu, por pouco, salvar o dojo das chamas na área devastada pelo fogo de Shinjuku.

Imediatamente após o fim da Guerra a prática de todas as artes marciais foi proibida pelo Quartel General dos aliados e Kisshomaru abriu as portas do dojo para mais de 100 pessoas que ficaram desabrigadas na esteira do conflito devastador. Nesse período ele passava parte do tempo em Tóquio e parte do tempo em Iwama. Quando a prática recomeçou em Tóquio de maneira informal, poucas pessoas aparecerem uma vez que a maior preocupação da maioria das pessoas era apenas sobreviver. Mas em 1948, o Zaidan Hojin Aikikai, o sucessor da Fundação Kobukai, foi estabelecido pouco a pouco e o dojo renasceu.

Tendo uma esposa, duas crianças e vários uchidechis famintos para alimentar, o Doshu estava nessa época empregado em período integral em uma empresa de seguros e ministrava aulas de aikido de manhã e à noite. Seu pai permaneceu Iwama treinando alguns poucos estudantes, entre eles Morihiro Saito. Conforme a prática em Tóquio ganhava ânimo, Kisshomaru começou a dirigir parte de seus esforços para a divulgação do Aikido para um público quase que totalmente ignorante da arte. Uma das principais viradas foi uma grande demonstração que teve lugar na Loja de Departamentos Takashimaya em 1956 onde, pela primeira vez, não apenas o Fundador, mas também instrutores sênior, realizaram demonstrações. Kisshomaru lançou seu primeiro livro , apropriadamente entitulado “Aikido” em 1957 e outros seguiram com intervalos regulares. O crescimento do aikido continuou de forma progressiva e constante e dojos se espalharam por cidades e escolas em todo o Japão. O nome “aikido” começou a se tornar familiar pra o público japonês em geral que, até então, mal podia identifica-lo como arte marcial.

O segundo Doshu Kisshomaru Ueshiba em ação
no Hombu Dojo da Aikikai em 1967

O próximo maior desafio na divulgação do aikido foi os países estrangeiros. Kisshomaru começou a enviar jovens e talentosos estudantes para o exterior a fim de estabelecerem dojos e, precedido por Koichi Tohei, ele mesmo viajou aos U.S. pela primeira vez em 1963. Este autor lembra vivamente ter participado em uma aula ministrada pelo Dushu durante aquela excursão inicial na ACM de Los Angeles.

Por volta da metade da década de 1960, um grande número de praticantes encheu os tatames do Hombu Dojo da Aikikai, junto com uma grande quantidade de estrangeiros que se dirigiram ao Japão para treinar na Meca do Aikido. O Fundador, embora agora em Tóquio a maior parte do tempo, estava em seus oitenta anos e Kisshomaru e Koichi Tohei eram as maiores figures no dojo. Seguindo a morte de “O-Sensei”, como Morihei Ueshiba se tornou conhecido, em 1969, um rompimento entre o novo Doshu Kisshomaru Ueshiba e o Instrutor Chefe Tohei gradualmente se desenvolveu, e o último deixou o Hombu para estabelecer sua própria escola em 1974.

No meio da década de 1970 o aikido havia crescido ao ponto em que o Doshu e as figuras seniores da Aikikai sentiram que era tempo de criarem a “International Aikido Federation” (Federação Internacional de Aikido). Federações nacionais foram reconhecidas em vários países e várias organizações ficaram sob o controle do Zaidan Hojin Aikikai. Doshu se tornou mais ocupado do que nunca, suas obrigações o levaram para muitas cidades nos E.U.A, Europa e na América do Sul.

Em 1977, a tão aguardada obra do Doshu “Biografia de Morihei Ueshiba” foi publicada pela Kodansha e é geralmente considerado o trabalho mais verdadeiro a respeito da vida de seu pai. Foi, além disso, por volta desse mesmo período que seu próprio filho começou a ser preparado para se tornar o “Terceiro Doshu da Aikido”. Este processo continua ainda hoje conforme as responsabilidades do jovem Ueshiba aumentam durante a preparação para o dia de sua sucessão. [O atual Doshu, Moriteru Ueshiba assumiu a posição de líder depois da morte de seu pai em Janeiro de 1999.]

O enfoque que o Doshu confere ao aikido, tecnicamente falando, enfatiza movimentos suaves e circulares. Uma vez ele me disse que o caractere “maru” em seu primeiro nome era simbólico de sua visão “circular” da essência da técnica do aikido. Em termos filosóficos o Doshu mesmo eloqüentemente resumiu seus pensamentos em relação a arte criada pelo seu pai com essas palavras: “Os movimentos do aikido estão em perfeita harmonia com os movimentos do espírito. Se alguém fala a respeito de assuntos espirituais ou arremessar o seu oponente sem feri-lo depois de tê-lo socado ou chutado, isso não é convincente. No aikido, nós fortalecemos a mente e o corpo através de movimentos suaves que estão em harmonia com a natureza.”

O Doshu continua extremamente ativo dando incontáveis demonstrações e leituras no Japão e exterior. Ele ensina regularmente no Hombu dojo da Aikikai três vezes por semana e, se ouve falar, está trabalhando em um novo livro que será um apanhado pessoal de sua filosofia do aikido.

Este artigo foi publicado em japonês na revista de artes marciais chinesa intitulada “Wushu” cerca de 1988.