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Oniisan

por Ellis Amdur

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Traduzido por Jaqueline Sá Freire – Hikari Dojo, R.J.

Não pense que você necessariamente terá noção de sua própria iluminação.
—Dogen Zenji

O Kuwamori Dojo era um pequeno dojo de judo nos subúrbios de Tókio, quando seu chefe se associou à família Ueshiba no início da década de 50. O Judo continua sendo praticado lá até hoje, mas, além disso, o Honbu Dojo mandou para lá professores como o Doshu, Nakazono, Tamura, Kuroiwa, e Yamaguchi para darem aulas de aikido. Este foi o primeiro shibu dojo (ramificação) do Aikikai, em comparação com outros centros mais ou menos independentes como Shingu, Iwama, e Osaka - que Ueshiba Morihei estabeleceu. Kuwamori morreu subitamente com cerca de cinqüenta anos, de um ataque cardíaco, deixando uma viúva e quatro filhos, tres meninos, Takenori, Yasunori, e Kazunori, e uma filha, Fumiko. O mais velho, Takenori, se tornou o diretor da escola, e Yasunori se tornou o principal instrutor de aikido. Juntos, Yasunori e Kazunori mantiveram o dojo de judo funcionando. Yasunori, com uns vinte anos de idade, se tornou dojocho (líder do dojo). Essa era uma posição difícil, pois muitos dos membros da escola estavam lá há tanto tempo que poderiam ter limpado o nariz dele quando ele era uma criancinha. Família ou não, eles achavam que mereciam mais autoridade, tendo em vista suas graduações, idades ou o que eles acreditavam ser uma habilidade maior. Como em um microcosmo, ele passou pela mesma experiência que Ueshiba Kisshomaru (Doshu) quando veio a suceder seu pai.

É claro que se qualquer um deles tivesse assumido a posição principal, todos os outros teriam partido. Cada aluno antigo acreditava que deveria ser o “rei da montanha”. Mas a linhagem descendente, entretanto, coloca o sucessor no centro, e não no topo. Alguns poucos podem ter partido, mas o núcleo se manteve. E foi assim com o dojo Kuwamori, que entrou na década de 70 com um jovem líder de quarto dan. Em 1975 eu decidi ir ao Japão, e um instrutor que eu conhecia me deu uma carta de apresentação para este dojo, aonde ele mesmo tinha começado a treinar nos anos 50.

Saltei do avião em um dia gelado, bem abaixo de zero, em 10 de janeiro de 1976. Eu fui recebido por um pequeno homem, que disse lentamente em inglês “eu sou Kuwamori.” Meu primeiro pensamento concreto no Japão, sendo eu bem mais alto, foi “meu deus, como entrar embaixo do braço dele para fazer um shihonage?” Depois chegou outro homem, forte, um pouco mais alto, e também disse” eu sou Kuwamori.” Eu tinha encontrado Takenori e Yasunori, nesta ordem. Fomos direto do aeroporto para o dojo, para o kagami biraki, a abertura do dojo para o ano novo. O dojo era pequeno, apenas 30 tatamis, com o tatami coberto por plástico, e apenas tres paredes, sendo a quarta uma abertura para um pequeno jardim. Estava tão frio que a água jogada no chão se transformava em gelo em poucos minutos. Eu passei direto de jet lag para a prática. Metade das pessoas que estavam no tatami eram faixas-pretas, a maioria deles colegas de escola do instrutor-chefe. A atmosfera era alegre e amistosa, mas meus pés estavam tao frios que eu não conseguia senti-los, e quando subi as escadas depois da prática, eu caí de cara no chão.

Uma das coisas que aprendi no primeiro dia é que eu não podia me dar por satisfeito com meus conhecimentos. Havia muita gente bem mais hábil que eu. Outros, que eram ou não mais habilidosos, eram mais velhos, então era meu dever demonstrar respeito por eles. Eu estava lá para aprender. Se eu dissesse a eles, ou para mim mesmo, “eu sei isso” ou “eu sei fazer isso melhor”, eu teria perdido toda a oportunidade para aprender e teria caído pateticamente em um mundo bem pequeno, uma platéia de um só. Descobri que podia aprender até fazendo coisas que estavam obviamente “erradas”. Por imitação e aprendendo a praticar da maneira que os outros praticavam, mesmo quando isso não estava de acordo com minha altura, meu corpo ou minha disposição, eu tive uma boa visão do mundo deles. Alem disso, até aprender completamente seus movimentos, como um ato físico que eu era capaz de repetir, eu realmente não sabia nada sobre aquilo.

As vezes eu resistia a isso. Alguns dos mais velhos quase me fizeram chorar de irritação com sua conversa incessante e as criticas de que eu era “forte demais”, e por fazerem com que eu parasse a técnica antes mesmo que eu movesse um músculo. Eu me imaginei arremessando alguns deles pelas portas abertas para o jardim mais vezes que sou capaz de contar. Mas mesmo assim, eu fazia as coisas da maneira deles, a maior parte do tempo.

Por vários meses eu vivi na casa dos Kuwamori, em cima do dojo. Na primeira noite, deitado no meu futon ao lado de onde o instrutor chefe dormia, eu disse em hesitante japonês, “boa noite, sensei.” Ele acendeu a luz e olhou para mim, e em um cuidadoso e desajeitado inglês respondeu “não me chame de sensei. Você deve me chamar pelo meu nome, Yasunori. Não posso ser chamado de “sensei” por alguém que está dormindo perto de mim. Pense em mim como seu irmão mais velho. E encontre seu sensei em outro lugar. Você compreendeu? Boa noite, Ellis.”.

Nós nos entendemos bem desde o inicio, esse homem musculoso, com um rosto belo-feio, e eu. Ele ia sem camisa para o jardim no meio do inverno, movendo sua espada de madeira, com o corpo soltando vapor no ar gelado, brandindo alegremente a espada com a mão esquerda tanto como com a direita, porque ele não queria ser um samurai, ele só queria ficar equilibrado. Ele me levou ao Honbu dojo para encontrar o Doshu, e me apresentou, apenas 20 minutos atrasado para o inicio da aula, o que o Doshu pareceu achar engraçado, porque ele sabia que Yasunori nunca acordava cedo para nada, e para ele estar atrasado apenas 20 minutos para uma aula às 6:30 da manhã era razão para comemoração. Nós saímos para comer macarrão, e ele comeu tres tigelas, rindo de felicidade, bebendo cerveja e fumando, e depois de voltarmos para casa ele correu para a área de exercícios no jardim, batendo contra bancadas com uma impressionante rapidez, e depois correu para cima para beber um pouco mais de cerveja e tomar um banho.

Seu aikido era deslumbrante. Cento e oitenta pounds de peso de carne dura, girando e se movendo com entusiasmo, recebendo arremessos de seus alunos com mais freqüência que os arremessando. Por causa dos anos de judo, ele adorava ser arremessado, e quando treinava com um parceiro lento ou pouco entusiasmado, ele se jogava no ar sozinho, descrevendo um enorme arco no ar, só para ter um impacto maior.

O nome do Kuwamori dojo foi bordado no meu hakama. Isso foi sugestão de Yasunori, significando que eu tinha sido “adotado”. Isso me permitia ir de dojo em dojo como um convidado. Se eu não fosse afiliado, muitos instrutores se sentiriam ofendidos se eu não entrasse para a escola deles, especialmente se eu entusiasticamente praticasse ocasionalmente - ninguém gosta de turistas. Um instrutor que eu conheci no Honbu dojo, que gostava muito de mim, me fez desistir de visitar essas escolas particulares, porque, pelo ponto de vista dele, ele imaginou que se sentiria possessivo caso permitisse que eu entrasse para a “família” dele sem me dedicar totalmente.

Mas para a maioria dos professores, era uma honra quando eu os visitava, não porque eu fosse especial de alguma forma, mas porque eu, que era aluno de outro professor, me dava ao trabalho de procurar suas escolas. E Yasunori simplesmente me encorajava a ir aonde eu pudesse, dizendo, “Aprenda coisas novas e traga o que aprendeu para cá, e nós vamos testá-las.”.

Todo o sofrimento que eu passei com o velho irritante do dojo foi muito útil para mim. Isso me ensinou a ficar de boca fechada e guardar meus preconceitos para mim mesmo. Assim, quando visitava outros professores e seus alunos, eu não ficava com maneirismos ou preconceitos técnicos. Afinal, para que eu iria a outros dojos se tudo o que eu faria seria continuar só com os meus poucos conhecimentos? Quando eu ia a outro dojo, eu treinava da maneira deles, me movia como eles, e tentava, por aquele curto tempo, pensar como eles. Depois eu podia retornar ao Kuwamori dojo para digerir tudo e deixar que isso entrasse em mim para fazer parte do estilo pessoal que eu estava lentamente criando.

Me juntei a um grupo de homens jovens, todos com vinte e poucos anos. Nós nos batíamos nas aulas noturnas saíamos para comer em uma loja de macarrão na rua, ainda vestidos com nossos keiko gi com geta (chinelos) de madeira barulhentos em nossos pés, depois corríamos de volta para outra aula.

O dojo de Yasunori era uma reunião de tipos diferentes, entre eles um quinto dan meio cego que me lembrava do Mister Magoo; um jovem intelectual descabelado que deveria ter sido um escritor, mas acabou aceitando um estressante emprego em uma companhia japonesa, perdendo um emprego quando ele derrubou um supervisor arrogante por cima de uma mesa; um jovem estudante de direito e sua namorada dos tempos de colégio; um baixinho alcoólatra que, apos anos prometendo se matar, ninguém mais o levava a serio, então ele subiu as montanhas de Chichibu com duas garrafas de sake e uma lamina e se sentou na neve e cortou os pulsos; um homem meio desagradável que sempre deixava hematomas nos pulsos das mulheres que ele segurava com muita força; um italiano grandão, ex-aluno de judo, que entrou para o aikido apos machucar as costas quando um buraco que estava cavando no jardim desabou sobre ele; e, finalmente, minha nemesis, um barulhento vendedor de cabeça raspada, enorme, ex-carregador da quinta estação do monte Fuji, que costumava carregar cilindros de gás nas costas diariamente, suas pernas eram como carvalhos, ele tinha uma bela técnica, e como ele não gostava de mim por eu ser estrangeiro, me presenteava com latinhas de carne de baleia ao descobrir que eu era contra a matança desses animais. Anos depois, apos ir para a Itália para dar aulas, ele voltou e me disse que entendia agora pelo que eu tinha passado. Um momento divino.

Era a vila de Yasunori. As rivalidades e pequenas brigas eram freqüentes, mas tudo era envolvido pela atenção de Yasunori. As pessoas se esqueciam do quanto ele era forte porque ele não precisava machucar as pessoas para provar isso. Ele me disse, “eu tenho que ser um pouco melhor que qualquer pessoa com quem eu pratique, qualquer que seja o nível dessa pessoa.” Então, algumas pessoas não lhe davam valor, e procuravam professores mais elegantes ou mais violentos; que pudessem lhes dar um “frisson” mais estético ou mais psicótico. Ele não fazia mágicas, nenhuma de suas técnicas parecia inexplicável pela mecânica corporal, e ele também não tinha medo de perder. Em minha experiência, eu nunca pratiquei com alguém da minha idade com quem me sentisse melhor que com ele.

Ele se apaixonou por uma de minhas melhores amigas, uma Americana, e eles se casaram. Isso não durou. Ele desejava uma mulher tão forte como ele, mas a mulher que ele escolheu tinha seus próprios sonhos e desejos, e ela se recusou a prender seus sonhos a uma vida de esposa do chefe do dojo. E ele, por sua vez, sentiu o peso da responsabilidade de ser o cabeça do dojo mais antigo afiliado ao Aikikai, a responsabilidade de manter a vida desta vila microcosmica, a assim, ele não partiu. Ela se foi. E isso lhe partiu o coração. O que era mais maravilhoso sobre esse homem era que, em um mundo em que a sensibilidade era mal vista, ele não tinha medo da dor da perda. Ele em nenhum momento fingiu estar acima disso. Ele nunca se refugiou na sutil covardia do não apego. Uma vez, bebendo com um discípulo do Honbu dojo, um homem muito duro, Yasunori falou abertamente de assuntos pessoais. Seu amigo se afastou aterrorizado, dizendo “Como você pode falar sobre isso comigo? Você me revelou sua fraqueza, e agora eu posso fazer com isso o que eu quiser.” Yasunori riu e disso, “Eu não tenho medo e que você saiba quem eu sou.” Seu amigo não pode lidar com isso, e a amizade deles esfriou.

Eu me lembro dos cheiros da casa, da cozinha da Sra. Kuwamori, e o riso que parecia sempre estar presente, a batida do meu corpo no tatami, o ar gelado do jardim no inverno, varrer os degraus com uma vassoura de gravetos, a sala de estar cheio de enfeites baratos e preciosos, dominada pelas fotos do pai Kuwamori resplandecente em seu judo gi com a faixa vermelha e branca, uma estátua de tamanho natural reverenciada no dojo. Lembro das ruas de Sakuradai, o gosto da cerveja e dos biscoitos de arroz, de caqui e, uma vez, de peixe seco, o som dos vendedores de rua, as risadas e amigos dos banhos públicos, o cheiro de flores no inicio da primavera. Os membros do dojo faziam corridas de manhã cedo, quatro milhas em ritmo lento, cantando, alegremente acordando a vizinhança com nossa cadência. Lembro de minha mãe e da mãe de Yasunori, ambas mulheres formais, correndo para se abraçarem da segunda vez em que se encontraram. Não trocaram uma palavra, mas se entendiam em tudo. E eu me lembro da prática. De segurar seus punhos enormes. Ele era muito forte. Ele era uns 20 cm mais baixo que eu, e tínhamos o mesmo peso. Nós nos batíamos, as vezes carregando um ao outro até o chão, dando gargalhadas, e de repente parando o riso com um estrangulamento, ou batendo no tatame por causa de uma chave. O dojo era tão pequeno, com tantos corpos se movendo, mas eu vi lá menos colisões que em lugares cinco vezes maiores. A técnica dele era simples e firme, perfeita em si.

Terry Dobson, cheio de historia e metáforas, um exemplo do aikido ensinado tanto como inspiração espiritual quanto como briga suja de rua, veio em uma visita ao Japão. Ele foi convidada a dar uma aula noturna, após a aula de Yasunori, e depois dessa aula, ele se debruçou na minha direção e disso “Como diabos eu vou seguir isso? Ele é impecável! E ele não disse nem uma palavra!” A mensagem estava toda lá, no movimento.

Então Yasunori ficou doente. Câncer de boca. Certamente a bebida e os cigarros não ajudaram, nem, talvez, a dor da perda de seu casamento. Quem sabe? Mas ele definhou. Nessa época eu estava morando do outro lado de Tókio, em Machida, e não o via muito. Eu recebi uma ligação na noite em que ele morreu. Ele tinha sido levado para um hospital a cinco minutos da minha casa, e estando fraco, incapaz de falar, ele escreveu varias vezes em um quadro, “Ellis chikai” (Ellis está perto). Ninguém entendeu o que ele queria dizer, achando que ele podia estar delirando, esquecendo no tumulto que eu morava perto. Sempre será uma das minhas maiores tristezas não ter estado com ele no fim de seu tempo na terra.

Eu penso em seu legado para mim, e vejo que ele era um homem muito melhor que os piratas e bandidos que eu admirava tanto, os homens duros e rudes que “praticavam de verdade.” Yasunori praticava de verdade. Para a vida real. Ele liderava um grupo de pessoas sem dominação, intimidação ou carisma - ele os liderava com carinho e por ser acessível. Ele treinava para ser mais forte, apenas porque isso lhe dava prazer, não para fazer uma proclamação pomposa de estar forjando seu espírito, nem pela fantasia de ser um guerreiro do século XX.

Em um livro em sua memória escrito logo apos sua morte, um menino de 12 anos de idade, membro do dojo de judo, escreveu que soube da morte de Yasunori. Ele disse que não sabia por que, mas naquele momento ele se lembrava do acampamento de verão, um ano atrás. Após a prática, ele e Yasunori entraram em uma loja e ele comprou uma lata de suco. Ele bebeu um gole e Yasunori perguntou, “está bom?” “Eu disse que sim” escreveu o menino. “Yoshi, yoshi,” (“isso é bom, isso é bom”), ele respondeu. Isso resume tudo. Um menino bebendo, olhando para cima para um homem com uma cabeleira negra e um enorme corpo bronzeado, ambos sob o sol e suados. O que mais há para dizer? “Isso é bom, isso é bom.”

Ele teria sido o mais maravilhoso pai para uma criança afortunada, se ele tivesse tido filhos. Ele certamente foi o irmão mais maravilhoso para muitos de nós. Para mim.

Este artigo apareceu inicialmente no Aikido Journal e pode ser encontrado no livro “Dueling With O-Sensei” de Ellis Amdur.

Se existe um “livro comum de artes marciais”, este seria seu gêmeo malvado. Absolutamente honesto, escrito de uma perspectiva de autoridade pessoal, Amdur explora aspectos de budo, suas filosofias e dilemas, suas notáveis vitórias e, sim, suas patologias, de uma maneira que nenhum outro autor fez. Ele o faz com humor, criatividade, e um insight aguçado que torna esse livro um prazer. — Dave Lowry, autor de Persimmon Wind

Muito mais que apenas um livro de artes marciais, Dueling with O-Sensei tem ampla aplicação em qualquer campo em que surjam questões sobre integridade e liderança