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Entrevista com Hiroshi Ikeda

por Stanley Pranin

Aikido Journal #104 (1995)

Traduzido por Christiaan Oyens

Aikido Journal: Sensei, que tipo de atividades pratica hoje em dia?

Hiroshi Ikeda: Eu dirijo o dojo de Aikido em Boulder, Colorado. Também, dois ou três finais de semana por mês eu conduzo diferentes seminários aqui nos Estados Unidos, como Califórnia, Seattle, Montana, etc… Freqüento o curso de verão dirigido pelo Robert Nadeau Sensei e o Frank Doran Sensei na Califórnia e o curso de verão dirigido pelo Mitsugi Saotome Sensei em Washington, D.C. Junto com o meu próprio curso de verão em Rocky Mountain, essas são as minhas três principais atividades de verão.

Somado ao seu dojo, o senhor também administra a companhia Bu Jin de produtos para a prática de artes marcias, correto?

Sim, eu fundei a Bu Jin há uns quatorze anos. Fazemos artigos como jo, capas para bokken e hakama. Eu mesmo desenho a maioria dos produtos, então são artigos que você não encontra nas lojas de suprimentos para artes marciais. Nossos hakama são iguais aos feitos no Japão, se bem que o nosso acabamento ficou mais robusto. Ficaram muito populares graças a sua durabilidade.

Vocês têm uma loja ou é tudo feito por correio?

Só aceitamos encomendas por correio. Temos atividade comercial dos Estados Unidos, Canadá e México. Temos eventualmente encomendas da Europa e outros lugares, mas não operamos como uma sociedade mercantil ainda. Tivemos até alguns pedidos do Japão.

Aikidocas profissionais frequentemente assumem práticas paralelas como a massagem ou treinamento policial, mas operar uma companhia como a Bu Jin é bastante original.

Suponho que sim. O fato é que para nós que viemos do Japão é extremamente difícil sustentar-nos ensinando o budo. É claro que a minha intenção fundando o Bu Jin não era apenas o sustento, mas também desejava ter equipamentos com durabilidade.

O que o trouxe para os Estados Unidos?

Bom, começou com o meu professor, Mitsugi Saotome Sensei. Ele era o instrutor na academia quando comecei a estudar na Universidade Kokugakuin. Se não me engano isto faz uns 27 anos e estou com ele desde então. Após sua transferência para os Estados Unidos, ele me perguntou se eu gostaria de vir também. Isto faz uns 19 anos, foi em 1976. Fui direto para a Florida e Saotome Sensei depois se mudou para Washington D.C. Eu fiquei na Florida praticando durante dois anos, depois vim para Boulder.

A maioria das pessoas preferem irem a grandes áreas metropolitanas para construírem dojos de sucesso, mas o senhor preferiu Boulder que é uma cidade relativamente pequena. Por quê?

Como você deve saber, Boulder é uma cidade de estudantes. A Universidade de Colorado fica aqui então tem muita gente jovem. Em contraste, a Florida tem uma grande porcentagem de idosos, aposentados que procuram uma vida de laser. Muitos jovens se mudam de lá ao se tornarem adultos. É muito difícil criar um grande grupo de aikidocas nessas condições. Eu fiquei impressionado com a quantidade de jovens em Boulder e pensei, “Ei, é para lá que tenho que ir!”

Enfrentou tempos difíceis enquanto estabelecia o seu dojo?

Não. Fico satisfeito desde que consiga treinar, mesmo que não haja tanta gente por perto. Para mim é suficiente se duas ou três pessoas se juntarem para treinar. Logo após chegar a Boulder, eu aluguei um espaço numa escola de massagem. Não havia tatames, então coloquei uns carpetes no piso. Aos poucos mais e mais pessoas foram entrando e pude construir um dojo. Quando me mudei, muitos dos meus amigos praticantes de aikido de outros estados me acompanharam. Eles me deram muita força mesmo.

Estava operando o Bu Jin e o dojo ao mesmo tempo?

Durante o dia ganhava um pouco de dinheiro trabalhando em um restaurante de comida japonesa, aí à tarde dava aulas de aikido. Cuidava dos afazeres da Bu Jin quando chegava em casa ao anoitecer. Quatorze anos atrás não haviam tantos pedidos, portanto cuidava dos negócios em apenas duas a três horas por noite.

Sobre Treinar

Por favor, nos conte qual é a sua abordagem sobre treinar.

A primeira questão é que devemos treinar com o corpo e não com a cabeça. É bom recebermos muito ukemi para sentir na pele o que é treinar. Se você usar demais a cabeça, seu aikido ficará muito intelectualizado e isso afetará de forma negativa seus movimentos corporais. Minha filosofia é aprender e entender o aikido com o corpo.

Normalmente começamos a nossa pratica com irimi-tenkan. Em vez de entrar logo nos movimentos de arremesso, creio que é mais produtivo trabalhar o corpo de forma gradativa, começando com irimi-tenkan para aquecer, depois praticando ushiro ukemi, e só depois os outros movimentos.

Melhor do que apenas ensinar ou treinar, é importante que eu também encontre oportunidades para aprender, crescer e cultivar meu próprio aikido, então procuro sempre novas abordagens. A pratica consistindo apenas em agarrar ou ser agarrado tem a sua utilidade num estágio inicial, mas acho que você deve ir mudando e experimentar com outras coisas quando estiver num nível mais avançado, como por exemplo, treinar como ser agarrado ou como permitir que seja agarrado de forma correta. A pratica de quebra de equilibro também é outra possibilidade.

Recentemente tenho trabalhado o conceito do “centro” (chushin), especificamente como manter o meu centro enquanto quebro o equilíbrio do meu parceiro.

A Qualidade do Treinamento

O senhor se sente muito influenciado pelo Saotome Sensei?

Sim, com certeza. Observando o que o Saotome Sensei tem feito ao longo dos anos, vejo que o aikido não pode ser apenas aikido; como budo, tem que ser completamente capaz de responder a tudo. Em outras palavras, tem que valer fora dos seus confinamentos. Saotome Sensei defende isto há anos. Saotome Sensei manifesta um caráter incomum nas suas demonstrações, pois elas sempre possuem uma intensidade explosiva e muita seriedade. As demonstrações de Saotome Sensei não só mostram que existe fluidez, mas também apontam claramente para uma proposta de treinamento que viabiliza a habilidade de responder a qualquer situação. Isto é algo que prezo como parte importante do meu próprio treinamento. Minha busca no aikido é de um budo que vá além dos confinamentos do aikido, aperfeiçoando uma forma de movimento como Saotome Sensei que parta do centro. A maneira do corpo se mover é de grande importância.

Faz uso do atemi em seu aikido?

Muito pouco, especialmente nenhum golpe em áreas como o rosto. Podemos dar uma encostada em alguém se eles se posicionam de forma perigosa ao agarrarem o parceiro, apenas para que eles se conscientizem que não devem se posicionar de forma vulnerável para um contra-ataque. Mas está mais para o peteleco do que para um golpe. Apenas o necessário para que eles percebam que devem se posicionar mais para o lado, ou para onde for. Dar este tipo de sinal para o parceiro o ajuda a prestar atenção à forma de agarrar corretamente. Desta maneira, tanto a pessoa que arremessa quanto a pessoa que agarra podem se beneficiar do treinamento. Em outras palavras, ambos devem considerar como se posicionam. Defendo um sistema de treinamento onde tanto o nage quanto o uke possam aprender de forma ativa.

Como se sente em relação ao intercâmbio entre artes marciais como treinamento?

Durante meus dias na universidade nós costumávamos dividir as dependências do departamento de educação física com praticantes de outras artes marciais como Shorinji kempo, judô e sumo. Lembro-me de algumas brincadeiras com eles; tentando sentir como um aikidoista responderia a esta ou aquela técnica. Fora isso, fazíamos com freqüência treinos de intercambio com outras universidades. A minha universidade era em Shibuya, então treinávamos com grupos de outras universidades na região - Aoyama Gakuin e a Universidade Kokushikan, por exemplo. Tinha um rapaz na Kokushikan que fazia belíssimos movimentos de esquiva corporal (tai sabaki) contra ataques com faca. Observar e treinar com ele era muito instrutivo.

Acho importante estudar com vários professores. Provavelmente a melhor proposta de aprendizado é de pegar elementos que você considere práticos de vários professores e usá-los para criar algo que se adapte ao seu corpo.

Se o treinamento com armas é ou não é essencial aos treinos de aikido é um assunto controvertido hoje em dia. Em sua opinião, a essência do aikido está apenas no taijutsu, ou deve se incluir o treinamento com armas?

Ambos, eu acho. Porém, tornar-se habilidoso com um bokken ou jo é algo para ficar em segundo plano. O importante é permanecer com as mãos na sua frente quando for treinar com estas armas. Como já mencionei, tenho treinado com o conceito de “centro” sempre em mente. Os meus alunos treinam movimentos com o bokken porque evitam que suas mãos se afastem dos seus respectivos centros. Se as mãos forem desviadas pros lados fica difícil conseguir algum poder executando as técnicas. Então considero o uso de treinamento com armas proveitoso no sentido de ajudar os alunos a firmarem e manterem seus próprios centros dentro dos movimentos no aikido.

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