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Entrevista com Hitohiro Saito Sensei

por Sonoko Tanaka

Aikido Journal #113 (1998)

Traduzido por Pedro Escudeiro

Este artigo foi preparado graças a assistência de Volker Hochwald da Alemanha.

Hitohiro Saito nasceu e cresceu em Iwama, onde começou a praticar Aikido com a idade de sete anos, tendo estudado com Morihei Ueshiba, em criança, e prosseguido a sua aprendizagem com seu pai Morihiro Saito Shihan.

Devotando-se a preservar a tradição espiritual e técnica do Aikido de O´Sensei, Hitohiro estabeleceu a reputação de uma técnica e métodos de ensino excelentes no Japão, Estados Unidos, Europa e Austrália.

Podemos sentir o seu transbordante amor e profundo respeito pelos seus dois mestres (o Fundador e seu pai) durante esta entrevista exclusiva.

Hitohiro Sensei, quais são as suas recordações mais antigas do dojo?

Costumava tomar as refeições com O´Sensei e de me ser dado o que sobrava do seu prato. Também me lembro de chorar de manhã enquanto criança, porque não conseguia encontrar a minha mãe ao meu lado quando acordava. Ela estava sempre longe, no dojo, a ajudar O´Sensei.

Diz-se que O´Sensei costumava ser muito severo?

Noutros locais, normalmente, O´Sensei só demonstrava as suas técnicas, mas em Iwama realmente ensinava e era muito rigoroso. Ele gritava “Que tipo de kiai é esse!? Vai lá para fora e vê se consegues deitar abaixo um pardal com o teu kiai”. Ou, para alguém que executava um yonkyo desleixadamente: Vai lá fora e experimenta numa árvore! Fica lá até lhe tirares a casca!”

Mesmo em criança apercebi-me, pela atmosfera à volta dele, que era um homem especial. Costumávamos todos fazer a vénia a partir do momento em que Saito Sensei, meu pai, ia buscar O´Sensei, e ficávamos prostrados até que O´Sensei chegasse, com Saito Sensei logo atrás. Finalmente, erguíamos a cabeça para podermos fazer uma vénia perante o santuário do Dojo. Então, começávamos o treino com tai-no-henko.

Se eu estivesse sentado ao lado de Saito Sensei, quando O´Sensei estivesse a explicar uma técnica de shomenuchi, seria chamado para executar o shomenuchi contra O´Sensei. Uma vez, foi dito à minha irmã mais velha para atacar O´Sensei, mas ela começou a chorar e saiu do dojo, uma vez que não era nada fácil para uma criança ir interromper O´Sensei desta forma.

Foi-me dito então para ir eu e bati dando um kiai, ao qual O´Sensei retorquiu, “Enfim, sempre vieste, não foi?”, projectou-me, mas usou a mão para impedir que a minha cabeça batesse no tapete, e disse “Cuidado agora.” O´Sensei era uma pessoa simpática a este ponto.

Lembro-me de ir para o quintal e vê-lo a escovar os dentes, quando de repente os tirou, uma vez que eram falsos, e disse, “Esta foi engraçada, não foi?” (Risos)

Que idade tinha na altura?

À volta do meu segundo ano da escola primária. O´Sensei ainda estava vigoroso nessa altura. Nos seus últimos anos fazia longos aquecimentos, mas quando comecei a praticar Aikido costumava ensinar mais técnicas.

Quando decidiu dedicar-se por inteiro ao Aikido?

Não tive muita escolha, uma vez que sou o único filho homem, mesmo tendo sido um indivíduo preguiçoso no que tocava ao treino (Risos). Planeei abrir um restaurante de forma a poder ganhar a vida enquanto praticava Aikido. Depois do liceu, fui para Sendai por um ano para aprender a cozinhar, depois fui para Osaka para mais dois anos de estudo. Sempre que tinha um dia livre visitava o dojo de Seiseki Abe e aprendia caligrafia com ele. Também visitava o dojo de aiki de Bansen Tanaka.

Abe Sensei pratica misogi (purificação, n.t.) deitando água fria para cima de si todas as manhãs, para purificar a alma. Parece expressar uma mente ascética através da sua caligrafia. Inicialmente, encontrou O´Sensei no dojo de Bansen Tanaka, em Takahama. O´Sensei reconheceu afinidades de espírito na via do misogi, e começou a aprender caligrafia com ele.

Visitámos Abe Sensei há alguns anos atrás e vimos alguns escritos espantosos, em rolo de papel, feitos por O´Sensei. Pode-se sentir uma atmosfera de espiritualidade assim que se entra no dojo.

Esses escritos são luminosos, não são? Para se saber mais sobre O´Sensei deveríamos ler os seus doka (poemas) e estudar a sua caligrafia. As fotografias e os filmes dão-nos um certo sentimento de ligação directa com O´Sensei, mas os seus poemas e caligrafia comunicam mais subtilmente connosco. São realmente maravilhosos e profundos.

Abe Sensei conhece os poemas de O´Sensei muito bem , não é?

Sem dúvida, espero que ele tenha sucesso com os seus planos de publicação da colecção de caligrafia de O´Sensei e de construir um museu dedicado a O´Sensei. Quando eu era criança, Abe Sensei visitava Iwama frequentemente com a sua filha. É um homem de estudo com uma compreensão profunda do Kojiki (Registo de Assuntos Antigos), o livro mais antigo da história japonesa, que O´Sensei costumava citar quando explicava Aikido. Abe Sensei falou-me bastante sobre o Kojiki, mas uma vez que é tão difícil, receio que tenha entrado por um ouvido e saído pelo outro. (Risos)

Praticou Aikido durante a sua fase de aprendizagem em Sendai e Osaka?

Em Sendai, treinei sob Hanzawa Sensei e, em Osaka, pratiquei no dojo de Abe Sensei.

Sempre abriu um restaurante em Iwama como planeava?

Sim, em 1978, mas era novo e tolo e costumava beber bastante com os clientes à noite, e não treinava muito seriamente. Geri o restaurante durante sete anos, mas comecei a recear estragar a minha saúde, por isso, falei com o meu pai e ele concordou que deveria sair desse negócio. Ele ia muitas vezes para o estrangeiro e precisava de alguém para tomar conta do dojo enquanto estivesse fora. Isso foi há onze anos e desde essa altura que estou a ensinar Aikido a tempo inteiro.

Há onze anos atrás fui à Dinamarca com Saito Sensei e participei num estágio lá. O ano passado foi o décimo aniversário desse acontecimento, por isso, voltei lá com Saito Sensei e mais algumas pessoas de Iwama. Foi um grande estágio com cerca de trezentos participantes. Que conselho daria aos estudantes de Aikido sobre os fundamentos do treino?

Saito Sensei afirma que todas as técnicas de taijutsu, ken e jo são baseadas no hanmi. Primeiro, há que dominar completamente o hanmi. Então, há que aprender a dar o kiai da forma correcta. Acho que o treino sem kiai não tem qualquer valor. O Fundador tinha um kiai maravilhoso. Se se quer aprender um verdadeiro budo não se pode cometer o erro de imitar O´Sensei. Infelizmente, as pessoas sabem pouco sobre O´Sensei, por isso, faço o melhor que posso para lhes falar dele.

A razão de ser da prática do Aikido é o forjar de nós mesmos. Não se pode fazer isso se se começar a praticar ki no nagare (técnicas fluidas) logo desde o início. O treino básico consiste em permitir que o adversário nos agarre firmemente. Ao fazê-lo, ele está a prestar-nos um favor. O parceiro impede que nos movamos e só então é que iniciamos a prática da técnica. Este é o primeiro passo da via. Um dos ensinamentos do Fundador era começar com tai-no-henko. Não devemos, sequer, deixar passar uma só prática de tai-no-henko. É isto que ensinamos em Iwama.

É muito importante treinar arduamente tai-no-henko e morote dori kokyu-ho. De contrário, não podemos sequer começar a explicar o ikkyo. Quando rodamos sob o pé da frente e abrimos para trás, como em ura waza, devemos ser capazes de executar correctamente o movimento de tai-no-henko, levando os dedos do nosso pé de encontro aos dedos do pé do parceiro. O nosso corpo roda à volta do dedo grande do pé da frente. É preciso ter a certeza que se “pivota” apropriadamente, e não de uma forma qualquer. É necessário harmonizar com o nosso parceiro de uma forma precisa, e não de uma maneira dúbia ou vaga. Devemos começar a partir deste início sólido.

A necessária precisão para harmonizar (“fundir” n.t.) é um ponto muito importante.

De uma forma geral, qualquer pessoa consegue “unir-se” (fundir-se, colar-se, n.t.), mas devemos começar por formas mais específicas que vão, em última análise, expandir-se para a forma de harmonia universal que o Fundador falava. Primeiro, aprende-se como “colar” com o parceiro “dedo grande, com dedo grande,” e então como rodar apropriadamente sobre o pé da frente. Quando já se sabe “pivotar” correctamente ser-se-á capaz de executar uma técnica de urawaza. Não se consegue expressar estas coisas verbalmente; só se pode atingir a perfeição através da prática. O Fundador disse, “A prática vem primeiro.” Não é o nosso parceiro que se deve “colar” a nós, mas nós é que devemos “colar-nos” a ele, em tudo: “Mover, abrir e então assumir a liderança”. Foi o que O´Sensei ensinou a Saito Sensei.

Um erro de um centímetro pode tornar uma técnica impossível de se executar com sucesso. Não se podem modificar as técnicas à nossa vontade só para que se acomodem a nós. Há uma forma específica de fazer cada técnica. Qualquer pessoa, e não só os mais fortes fisicamente, devem ser capazes de aplicar as técnicas. Infelizmente, as pessoas negligenciam o tai-no- henko. Posso afirmar, olhando para as pessoas a praticar tai-no-henko e morote dori kokyu-ho qual o tipo de treino que têm feito nos seus dojo. Não preciso de ver mais nada. Penso que todos os fundamentos do taijutsu do Fundador estão contidos nestas duas técnicas e no ikkyo.

É difícil encontrar alguém que seja capaz de executar uma técnica de ikkyo perfeita. Eu sei que isto pode parecer insolente, mas penso que não se pode compreender o Aikido sem que se comece correctamente a partir destas técnicas.

Se não se tiver dominado o tai-no-henko, iremos sempre acabar por colidir com o adversário nos outros movimentos. O treino básico serve para permitir que sejamos capazes de corrigir os problemas causados por movimentos do corpo errados. É impossível explicar isso por palavras, uma vez que tem um significado mais profundo, mas sinto que a única forma de aprender é permitindo que o parceiro nos agarre firmemente.

Nalguns dojo os professores põe os seus alunos a praticar as técnicas depois de as mostrarem apenas duas ou três vezes, sem mais explicações, mas em Iwama dão-se sempre explicações detalhadas.

A razão porque Saito Sensei explica as técnicas em pormenor é porque ele gostava que todas as pessoas pudessem dominar cada técnica o mais rapidamente possível. O seu método de ensino é o resultado de ele próprio ter cometido muitos erros ao longo dos anos e de ter aprendido com eles. Nos seus últimos anos O´Sensei demonstrava a técnica num instante, e depois avaliava a capacidade dos alunos pelo quanto eles conseguiam compreender.

Como Saito Sensei quer que as pessoas melhorem mais rapidamente do que ele, interrompe os seus alunos no instante em que cometem um erro e ensina-os em pormenor. Não seria capaz de o fazer se tivesse vindo a ter um treino leve.

Se o parceiro se submete a nós constantemente, não será possível saber se estamos a executar as técnicas apropriadamente. Ao agarrar com força o parceiro ajuda-nos a compreender se estamos a aplicar as técnicas correctamente ou não. Isso não significa que deva agarrar de uma forma desonesta ou mal intencionada, contudo, nesse caso, a técnica pode ser modificada de forma a lidar com a situação.

O parceiro deve agarrar com firmeza, mas correctamente, e assim aprendemos a “fundir” com a sua força. Este é o treino básico. Se ele faz um “agarro” cruzado, por cima ou por baixo, deve-se alterar a nossa resposta em conformidade. Quando o adversário vem para agarrar, devemos manobrá-lo habilmente. Emprestamos o nosso corpo uns aos outros para podermos treinar seriamente.

As pessoas dizem que no Aikido não podemos avaliar o nosso nível porque o parceiro colabora connosco.

Isso não é verdade. Pode-se sempre ver se a nossa técnica é boa ou má em qualquer momento da prática. Se se tiver que fazer qualquer esforço desnecessário, sentirmos que o adversário é pesado, ou colidirmos com ele, é porque não estamos a “fundir” com ele completamente. Deveríamos ser capazes de identificar, claramente, o que está errado com o nosso movimento, ou se não abrimos o suficiente. Não há necessidade de um confronto para se afirmar se as técnicas resultam ou não.

Quer isso dizer que o parceiro deve atacar com seriedade, no treino?

Sim, se eu digo “ataca a direito” ele deve fazê-lo com o máximo de potência; se eu digo “bate-me”, ele deve bater com todo o poder; ou deve agarrar-me com toda a força. Ele deve atacar com todo o seu poder e energia. É lógico que se a força do uke difere consideravelmente da do seu parceiro, ele deve atacar com menos força, para que assim o nage possa aprender. O Fundador afirmava que treinar com uma criança é uma boa forma de aprender. “Fundir” totalmente a nossa energia com a de uma criança é um grande desafio. Obviamente, algumas pessoas são mais fortes que outras, mas se magoam o seu parceiro cometem um acto de violência, o que já não é Aikido. Algumas pessoas pensam que essa prática violenta tem valor, mas eu acho vergonhoso.

O Fundador disse que devíamos sentir prazer com o nosso treino, mas depende de nós em quão agradável ele se torna. Quando dizemos sinceramente, no final da aula, “Muito obrigado. Por favor, treina comigo novamente,” esse é o melhor tipo de treino.

Se surge um conflito entre nós e o parceiro, e se permanece um sentimento desagradável depois do treino, este treino não pode levar à paz mundial, como o Fundador queria. Eu quero que as pessoas desfrutem todas as minhas aulas. Ainda que alguém tenha uma lesão e mesmo assim queira treinar, deve ser acomodada. Aconselho os alunos a dizerem aos seus parceiros se têm um cotovelo ou um punho magoados. Ainda podem treinar sinceramente, com o braço bom. Digo às pessoas que têm problemas com os joelhos para executarem técnicas de pé, em vez de joelhos. Não devemos treinar descuidadamente. O melhor treino é aquele onde nos preocupamos com o parceiro.

O Fundador defendia uma abordagem de mente aberta e em Iwama ainda se pode ser tocado por este sentimento. Ele também dizia que se pode aprender de qualquer coisa que vejamos, se quisermos. Isso é mesmo verdade.

Mesmo que alguém não possa treinar todos os dias, é mais importante que a sua atitude seja séria, não é?

Sim. O Fundador dizia que mesmo que praticássemos suburi centenas de vezes, estaremos a perder tempo se não pomos o nosso ki no que fazemos. Dez vezes é o suficiente se dedicarmos toda a nossa energia a isso. Não é uma questão de quantas repetições ou quanto tempo se despende a treinar. Não no tornamos automaticamente peritos por treinarmos durante muitos anos, e não temos que ser uns alunos fracos só porque estudamos apenas dois anos. É uma questão de quão seriamente nos cultivamos a nós próprios.

O nosso treino deve ter profundidade, e não serve de nada treinar ao acaso. Deve-se rentabilizar ao máximo o treino. Não interessa as poucas técnicas que praticamos, há é que manter em mente que devem ser eficazes numa situação real. Devemos ser sérios “de morrer” no nosso treino e não perder um minuto que seja. Às vezes, vejo as pessoas a fazerem demonstrações onde as técnicas carecem de definição, mesmo que estejam a tentar bastante. Isso é lamentável; fariam melhor treinar arduamente, já que perdem tanto tempo nisso. Devemos relaxar e empregar toda a nossa energia.

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