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Entrevista A Morihiro Saito Sensei

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por Stanley Pranin

Aiki News #33 (March 1979)

Traduzido por Pedro Escudeiro

Durante o treino O’Sensei ensinava as técnicas que tinha desenvolvido até aquele ponto como se estivesse a sistematizá-las e a organizar para ele próprio. Se começássemos a fazer swari waza (técnicas sentadas), continuávamos a fazer só isso, umas a seguir às outras. Os sempai (alunos mais antigos) e os kohai (principiantes) praticavam juntos e os kohai davam os ukemi (quedas). Quando os sempai acabavam de fazer para o lado direito e esquerdo e chegava a vez dos kohai já era altura de mudar para a próxima técnica. O treino nessa época não era fácil. Costumava rever a prática do dia com o Sr. Goro Narita, tio de Yuichi, no caminho por entre os campos de arroz quando regressávamos para a linha de Joban (linha de comboio da Prefeitura de Ibaraki). Se tivéssemos praticado durante muito tempo, levávamos cerca de duas horas para chegar à estação. Era a minha prática livre. Quando estudávamos uma técnica aprendíamos sistematicamente técnicas relacionadas. Como também considero ser este o método correcto, não ensino técnicas favoritas de uma forma não sistemática. Ensino sempre técnicas relacionadas. Desta maneira, os alunos podem aprender as técnicas de uma forma organizada e quando ensinarem serão eficazes. Se praticarem de uma forma não sistemática não poderão ensinar de uma forma organizada. O’Sensei, também, nos ensinou dois, três ou quatro níveis de técnicas. Começava com kata, depois um nível a seguir ao outro e, por fim, ficava assim… e agora ensino exactamente da mesma forma. Não é bom ensinar só técnicas vistosas para que sejamos vistos como grandes professores. Não é importante se não damos nas vistas. Aqueles que não querem praticar não precisam de vir. Por isso o Aikido não é uma coisa que tenhamos de pedir às pessoas para praticar dizendo, “Vem e junta-te a nós.” Não é algo que se publicite. Aqueles que querem praticar vêm e praticamos todos em conjunto. É por isso que digo que não nos devemos esforçar empurrando as pessoas para virem. Aqueles que não tiverem uma vontade forte irão contagiar outros. Vão contagiar os que praticam honestamente. Porque O’Sensei nos ensinava sistematicamente, também tenho de ensinar de uma forma organizada. No período antes da Guerra ele ensinava sem dar explicações. Os alunos não podiam fazer perguntas. Apenas demonstrava as projecções. Mas eu fui ensinado de manhã à noite e ele dizia, “Não é assim que se faz. Qualquer pequeno detalhe deve estar correcto. Caso contrário, não é uma técnica. Vejam, é assim… desta maneira!” Esses são os kuden (ensinamentos orais) que eu escrevi. Assim, se eu tenho um problema ao fazer uma certa técnica recordo o que me foi dito por O’Sensei e passa a funcionar bem. Por esta razão considero estas palavras como segredos fabulosos, por outras palavras, “kuden”. Por isso, escrevi os meus livros como ensinamentos orais. Nos tempos antigos, as instruções eram secretas e eram secretamente transmitidas. Não fazia mal serem mantidas em segredo. Os segredos eram necessários. Contudo, no Aikido de hoje em dia, os segredos já não são necessários. Uma vez que o Fundador disse que desejamos espalhar este Aikido – O Aikido correcto – eu gostaria de melhorar o mais depressa possível, mesmo por um dia. Apesar de ele não ter muitos alunos nessa época, O’Sensei também costumava projectar todos pelo menos uma vez. Por isso também toco em todos, embora fosse impossível fazê-lo se houvesse dezenas de milhar de alunos, pelo menos no “tai no henko” e no “kokyuho.” Não sei se lhe posso chamar a minha filosofia, mas pela minha maneira de pensar, uma vida do tipo familiar, como esta, é necessária e isso sem que haja toque e contacto de pele com pele o verdadeiro Aikido não pode ser compreendido, nem ensinado. Não me parece que funcione bem quando um professor diz, “Faz assim!” ou “Assim não está bem!”, falando para os alunos. No meu caso, as minhas explicações durante a aula são bastante longas. Embora todos fossem inteligentes eu não era, e passava um mau bocado para aprender. Por isso, quando vejo um aluno a mover-se incorrectamente paro-o e digo-lhe: “O teu movimento não está muito bom. É melhor desta forma.” Ou, “Deverias fazer assim.” E sem explicações durante a aula as pessoas cansam-se. Uma vez que quero dar às pessoas uma oportunidade para descansarem e também porque quero que a sua técnica fique perfeita, mesmo que seja um só dia mais cedo, dou frequentemente explicações durante a aula. Não sei falar muito bem e não sou muito talentoso, por isso, não o consigo fazer como gostaria. Sou muito afortunado porque O’Sensei me ensinou dedicadamente, em detalhe, e eu sigo o seu exemplo.

Quando acompanhava Sensei numa viagem era testado por todos, embora não fossem indelicados para com O’Sensei. Uma vez fomos a Osaka, a classe inteira era constituída por judocas com o quarto e quinto dan… Está a ver, os meus braços eram tão finos. Por isso, gozaram-me e testaram-me.

Os seus braços eram finos? (risos)

Depois da Guerra quando o Sr. Minoru Mochizuki abriu um dojo na Prefeitura de Shizuoka, O’Sensei, foi convidado e eu acompanhei-o. Lá, entrei no banho para lavar as costas de O’Sensei, ele olhou para mim e disse: “Saito, tu és magro!” Depois disto ter acontecido fui para o departamento de manutenção da JNR (Caminhos de Ferro Nacionais Japoneses onde Saito Sensei trabalhava na altura) e pedi emprestado um bocado de um carril com um metro de comprimento e que pesava oitenta e uma libras. Como não havia halteres, usava o carril… mas agora tenho dores nos joelhos e não há nada que possa fazer. De qualquer forma, o método de ensino do Fundador era perfeito. Ele ensinava de forma que ninguém pudesse compreender e recordar-se. O Aikido de antes da Guerra não era o verdadeiro – lembrem-se que ele tinha indicações para fazer o que fazia da parte dos militares – ele costumava dizer que o Aikido do pós-Guerra era o verdadeiro… De qualquer maneira, como a instrução de O’Sensei era correcta, preservo-a nos meus ensinamentos. Mas acho que devia estudar mais e ensinar mais delicada e educadamente. Vou tentar fazê-lo…

Diz-se que quando O’Sensei veio para Iwama durante a Guerra sofreu uma profunda modificação espiritual. Pode descrever-nos como O’Sensei se modificou durante esse período importante e que influência ele teve no desenvolvimento do Aikido?

Não sei esse tipo de detalhes. O que eu sei é o seguinte: Perto do final da Guerra, os militares finalmente aperceberam-se que o Japão não podia ganhar a Guerra ensinando Judo (aos soldados). O Dr. Soichi Sakuta, presidente da Universidade de Kenkoku na Manchúria disse, “Não podenos ganhar a Guerra com o Judo. Ensinem Aikido em vez disso.” Então, o Sr. Kenji Tomiki tornou-se o shihan do Aikido na Universidade de Kenkoku. Também na Academia Naval de Edajima decidiram que o Judo era inadequado e mudaram para o Aikido. Discutiram sobre quem deveria ser o shihan adequado para eles e acharam que Akasawa-no-sabu (alcunha) seria bom. O Sr. Akasawa estava na altura a combater na frente do Pacífico a bordo do navio “Akishima”. O’Sensei era suficientemente influente para o chamarem para Edajima através de um telegrama do Quartel General Militar. Assim o Sr. Akasawa regressou a Edajima e eu ouvi dizer que ele só comia, dormia, comia e dormia de maneira a fazer voltar a boa forma ao corpo. Então, em breve a Guerra acabava. O’Sensei disse, “O Aikido foi finalmente reconhecido. Os jovens oficiais do exército e da marinha são débeis. Temos que reeducá-los. Mas não temos um lugar apropriado para isso. Deveríamos construir um dojo ao ar livre. Sem re-treinar os oficiais jovens num dojo ao ar livre não poderemos esperar ganhar a Guerra. Não podemos ganhar a Guerra pedindo-lhes para aprender Judo ou Kendo. Têm que aprender as bases do Aikido de acordo com o método do Aikido.” Quando encontrou este lugar (Iwama) para o dojo ao ar livre e o dojo foi construído, a Guerra acabou. É tudo o que eu sei. Para além disso não tenho a mais pequena ideia da alteração psicológica de O’Sensei provocada pela situação social. O que acabei de contar é o que eu sei e ouvi-o claramente (de O’Sensei).

Perto do final da Guerra, os militares finalmente viram que o nosso país iria perder a Guerra se praticássemos Judo. Pelo menos, na Academia Naval assim pensavam. Antes disso, O’Sensei costumava ensinar na Escola Militar de Nakano, Universidade do Éxercito, Universidade da Marinha, Universidade de Toyama e na Escola de Polícia Militar - ele ensinou mais de dez anos. Depois de ter ficado decidido que o Judo não era adequado, a Universidade de Kenkoku na Manchúria também mudou para o Aikido. Contudo, quando a Guerra acabou era proibido treinar artes marciais, possuir um sabre, ou uma pistola ou uma faca com uma lâmina que medisse mais de sete centímetros. Em tais circunstâncias, quando O’Sensei estava a esforçar-se fazendo o seu melhor para manter viva a semente do Aikido aqui, foi quando me tornei seu aluno. Havia uma série de sempai, mas todos eles cresceram e foram-se embora. Todos eles regressaram às suas próprias casas, entraram para empresas, regressaram às suas famílias ou arranjaram empregos. Se a sua família possuísse um dojo eles herdavam-no, etc. No final, apenas um pequeno número de sempai aqui das redondezas e eu ficaram. Mas todos os sempai desta zona acabaram por não poder vir ao dojo depois de casarem, porque tinham que trabalhar duramente nas suas ocupações… Sempre que Sensei aqui estava nunca sabíamos quando é que ele nos mandava chamar. Mesmo quando pedíamos a ajuda dos nossos vizinhos para malhar o arroz, nesse mesmo dia, se Sensei dissesse, “Vem!”, e não fossemos, o resultado seria terrível. Por isso, toda a gente acabava por ser incapaz de vir ao dojo de forma a conseguirem manter as suas famílias. Eu podia continuar porque estava livre durante o dia, embora fosse trabalhar todas as outras noites. Podia viver sem receber qualquer dinheiro de O’Sensei porque era pago pelos Caminhos de Ferro Japoneses. O’Sensei tinha dinheiro, mas os alunos desta zona não. Se estivessem com Sensei não teriam rendimentos e não seriam capazes de cultivar arroz para as suas famílias e morreriam por virem ao dojo. Todos eles, gradualmente, deixaram de vir. Eu pude continuar porque tinha dinheiro suficiente para viver. Era suficientemente privilegiado por ter um emprego, caso contrário, não teria sido capaz de continuar. Como lhe era de certa forma útil, O’Sensei fervorosamente ensinou-me tudo. Era extremamente severo. Era assim apenas para aqueles que o serviam arriscando as suas próprias vidas, mesmo sendo somente para aprender budo; só ajudando-o de manhã à noite nos campos, sujando-se e massajando as suas costas, é que O’Sensei abria o seu coração.